Em Presidente Prudente, assim como em tantas cidades médias do interior paulista, a mobilidade urbana é uma das principais fronteiras da desigualdade. Para milhares de trabalhadores, estudantes e moradores da periferia, o direito de circular pela cidade não depende apenas de tempo e distância, mas do quanto cabe no bolso no fim do mês. Pesquisa recente desenvolvida na FCT Unesp, coordenada pela geógrafa Dra. Paula Novack, em diálogo com movimentos e coletivos que atuam no campo da mobilidade urbana, vem demonstrando como os deslocamentos cotidianos não são neutros, porque eles expressam e aprofundam desigualdades socioespaciais. Morar longe do centro, depender de poucas linhas de ônibus, enfrentar longos tempos de espera e pagar caro por um serviço precário não são “acidentes”, mas parte de um modelo de cidade que exclui silenciosamente.
É nesse cenário que o debate sobre a Tarifa Zero ganha densidade. Longe de ser uma utopia distante, o transporte público gratuito já é realidade em mais de 130 cidades brasileiras, beneficiando milhões de pessoas. Municípios de diferentes portes passaram a tratar o deslocamento como política pública estruturante, e não apenas como um serviço a ser pago individualmente pelo usuário. O resultado tem sido o aumento do uso do transporte coletivo, maior acesso ao trabalho, à educação e aos serviços públicos, além de impactos positivos no comércio local e na dinâmica da cidade.
A crise do modelo atual também ajuda a explicar por que esse debate se intensificou. O sistema de transporte coletivo, baseado quase exclusivamente na arrecadação da tarifa, entrou em colapso nos últimos anos. Com a queda no número de passageiros, o aumento das passagens e a precarização do serviço, cria-se um novo ciclo onde menos gente usa o ônibus, a receita cai, o serviço piora e a tarifa sobe. No fim das contas, quem paga a conta é sempre o mesmo: o trabalhador que depende diariamente do transporte público para viver a cidade.
Quando se fala em Tarifa Zero, surge a pergunta: “quem paga essa conta?”. A resposta é direta: a sociedade já paga pelo transporte, só que hoje paga de forma desigual. No modelo atual, o custo recai de maneira desproporcional sobre quem tem menos renda. Nas experiências de Tarifa Zero, o financiamento passa a ser coletivo, via orçamento público, fundos municipais, taxas sobre grandes geradores de tráfego, reorganização de prioridades e subsídios cruzados. Não se trata de “gasto”, mas de investimento social, assim como saúde e educação.
Trazer esse debate para a realidade de Presidente Prudente é discutir projeto de cidade. É perguntar se vamos continuar naturalizando que parte da população precise escolher entre pagar a passagem ou garantir outras necessidades básicas do mês. É refletir se o direito de circular, trabalhar, estudar e acessar serviços deve ser condicionado à capacidade de pagamento. A Tarifa Zero, por si só, não resolve todos os problemas do transporte público. Ela precisa vir acompanhada de planejamento urbano, melhoria da qualidade do serviço, ampliação de linhas e integração com outras políticas públicas. Mas ela altera a lógica: o deslocamento deixa de ser mercadoria e passa a ser reconhecido como direito. Em um país marcado por desigualdades históricas, garantir o direito de ir e vir é uma forma concreta de ampliar o direito à cidade.
Quanto custa para uma cidade continuar impedindo parte da sua população de circular plenamente por ela?