Tempestades, ruídos e estratégias empresariais

OPINIÃO - Walter Roque Gonçalves

Data 15/02/2026
Horário 04:30

O noticiário econômico recente tem sido um prato cheio para a inquietação. O escândalo envolvendo o Banco Master, precedido pelas denúncias bilionárias no Instituto Nacional do Seguro Social, somam-se à percepção crescente de desequilíbrio entre os Poderes, as pressões com as eleições de 2026, à escalada dos juros e à sensação de insegurança jurídica. O empresário lê, escuta, acompanha. E se pergunta: até que ponto tudo isso é risco real e até que ponto é ruído que paralisa?
No filme oficial da Fórmula 1, estrelado por Brad Pitt, o personagem Sonny Hayes — e não “Sony” — faz uma reflexão poderosa sobre ruídos. Em determinado momento, ele orienta o jovem companheiro de equipe, Joshua Pearce, a não se deixar contaminar pelas críticas destrutivas que circulam nas redes. No ambiente da alta performance, foco é ativo estratégico. Quem corre olhando para o barulho da arquibancada erra a curva.
A lógica é semelhante no mundo empresarial. O empresário precisa, sim, acompanhar o ambiente macro. Ignorar juros, inflação, câmbio ou mudanças regulatórias é imprudência. Mas transformar cada manchete em angústia permanente é improdutivo. O que, de fato, está sob seu controle?
A macroeconomia é como previsão do tempo. Se há indicativo de tempestade, cabe tirar a capa de chuva da gaveta, revisar o fluxo de caixa, reduzir alavancagem, renegociar prazos. Se o cenário aponta céu aberto, talvez seja hora de investir, ampliar equipe, acelerar marketing. O que não faz sentido é permanecer paralisado discutindo as nuvens.
O empresário não fixa a taxa Selic. Não arbitra embates entre os Poderes. Tampouco conduz investigações envolvendo grandes instituições. As decisões estruturais passam pelo Legislativo e pelas entidades de classe que representam setores organizados da sociedade.
Mas, no cotidiano da empresa, é ele quem define preço, ajusta posicionamento, melhora a experiência do cliente, aperfeiçoa processos, desenvolve pessoas e constrói — ou destrói — valor. É nesse campo que reside seu verdadeiro poder de transformação.
Empresas que atravessam crises são, em regra, aquelas que dominam seus indicadores internos. Sabem sua margem de contribuição, conhecem seu ponto de equilíbrio, têm clareza de propósito e disciplina de execução. Enquanto muitos se perdem debatendo o cenário, elas ajustam processos, fortalecem relacionamento com clientes e desenvolvem pessoas.
O Brasil continuará sendo um país de ciclos. Haverá momentos de tensão institucional, escândalos, juros altos e volatilidade. Também haverá fases de expansão e oportunidades. O empresário atento observa o horizonte, mas trabalha com as mãos naquilo que pode transformar, sem perder o foco e ignorando os ruídos.

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