Teste Psicológico

Sandro Villar

O Espadachim, um cronista que avisa: quem avisa inimigo não é

CRÔNICA - Sandro Villar

Data 10/04/2022
Horário 05:30

Apenas por causa da situação hilariante, sem qualquer preconceito (esta palavra não existe no meu dicionário), é que conto, em forma de crônica, a piada que circula na internet, cujo autor estava com a corda toda, apesar de não ser enforcado. 
A historinha é a seguinte: o Zenóbio desconfiava do filho achando que o rapaz, como direi?, enfim, presumia que o moço jogava água fora da bacia. Se não ficou bem claro, o pai aflito achava que o filho era viado mesmo por causa de seus trejeitos meio esquisitos. 
Mais preocupado que o pai interpretado pelo saudoso ator Jorge Dória em “Zorra Total”, o Zenóbio quis tirar tudo em pratos limpos e, assim, levou o filho para se consultar com um psicólogo, desses bem doidinhos da Silva, que deixam a vítima, quer dizer, o paciente ainda mais doido.
Depois da conversa preliminar, o psicólogo começou a fazer o teste com o Armandinho, o filho em questão. O teste psicológico era uma exigência do pai. “Então, meu jovem, vamos lá”, disse o doutor Gumercindo, psicólogo experiente com muitos anos de janela e até de porta em sua área.
“Qual é o seu legume predileto?”, quis saber o psicólogo. De bate-pronto, o rapaz respondeu: “É chuchu”. O pai ficou aliviado porque, desconfiado, pensou que o filho responderia cenoura e, o que é mais grave, nabo. “Esse menino é macho, estou sendo injusto com ele”, sussurrou.
Aí o psicólogo quis saber qual era o animal favorito de Armandinho. De novo, para alegria do pai, o filho não decepcionou. “É jacaré”, respondeu o moço. “Ele não é viado, minha preocupação não se justifica, se fosse viado teria respondido que seu animal preferido era veado”, murmurou Zenóbio.  Depois de uma pausa para um cafezinho, o psicólogo reiniciou o teste, que mais parecia um batismo de fogo para o rapaz. E um tormento para o pai.
Mais uma pergunta e, desta vez, o doutor Gumercindo quis saber qual era o número favorito do rapaz. Ao ouvir a pergunta, o pai quase caiu de costas, parecendo o Brasil, quando os investidores estrangeiros levam a grana embora. 
Foi só um susto do velho até porque Armandinho tirou de letra. “Meu número favorito é o 11”, respondeu, orgulhoso, o filho.
Também desta vez o pai reconheceu que era injusto com o filho. “Está provado que ele não é bicha, se fosse teria respondido 24”, falou baixinho com os punhos cerrados de tanta satisfação com a resposta. 
Por fim, porque teste psicológico também cansa, o doutor fez a última pergunta: “Armandinho, diga lá, rapaz, qual é a profissão que lhe atrai mais, enfim, o que você gostaria de ser?”. Curto e grosso, e até monossilábico, o filho respondeu: “Juiz!” O pai não se conteve e manifestou seu contentamento. 
Afinal, o moço poderia citar outras profissões mais visadas que muçulmano em aeroporto americano. “Ainda bem que ele não mencionou cabeleireiro e costureiro”, comentou com forte carga de preconceito contra as duas profissões, que ele tachava de suspeitas. 
A alegria de Zenóbio, no entanto, durou pouco. Durou pouco? Sim, meus cupinchas, a alegria foi fugaz (gostaram do fugaz?), pois o psicólogo deu seu parecer definitivo sobre a personalidade do rapaz. “E então, doutor, meu filho passou no teste?”, perguntou o pai, mais aflito que candidato em queda na pesquisa eleitoral.
Sem papas e bispos na língua, o psicólogo foi taxativo. “Seo Zenóbio, seu filho é uma tremenda bichona, e o teste revelou isso. Sobre o legume, ele respondeu chuchu, que dá o ano inteiro. Já sobre o animal favorito, citou o jacaré, que é o bicho que mais dá rabadas a torto e a direito, é um bicho que usa o rabo à vontade. O jacaré só se defende com o rabo. E o número? Citou o 11, o que significa um atrás do outro. E o que dizer da profissão? Quer ser juiz e está explicado: juiz trabalha na vara, a começar pela Vara da Infância, passa pela Vara da Juventude e até pela Vara da Família”, diagnosticou o doutor Gumercindo, sem usar meias palavras. 
E sem rodeios, pois isso é festa de Barretos. Ao pai não restou outra alternativa a não ser se lamentar como o personagem do Jorge Dória – onde foi que eu errei? – e pagar a conta do teste psicológico que ficou mais salgada do que bacalhau.

DROPS

No Brasil, os salários são mais baixos que anão e os preços mais altos que o Oscar Schmidt.

O que os olhos não veem no supermercado o estômago não reclama.

Com a clonagem, fica estranho dizer a alguém “vá ver se estou lá na esquina”, porque o clone pode estar na esquina.

Pior que a inversão térmica é a inversão de valores.
 

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