Tratar a apneia do sono é muito mais do que usar um CPAP

OPINIÃO - Priscila Kalil Morelhão

Data 08/07/2026
Horário 05:30

Receber o diagnóstico de apneia obstrutiva do sono e iniciar o uso do CPAP não significa, por si só, que o tratamento esteja resolvido. Na prática clínica, uma das frases que mais escuto é: “Eu tentei usar, mas não consegui”. Máscara desconfortável, vazamento de ar, ressecamento e dificuldade para dormir são algumas das razões que podem levar ao abandono de uma terapia reconhecidamente eficaz.
A apneia obstrutiva do sono vai muito além do ronco. Durante o sono, episódios repetidos de obstrução da via aérea podem reduzir a oxigenação e fragmentar o sono. Ao longo do tempo, essas alterações estão relacionadas a importantes repercussões para a saúde.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 na Lancet Respiratory Medicine reuniu 30 estudos e mais de 1,1 milhão de pessoas com apneia obstrutiva do sono. Os resultados mostraram que o tratamento com pressão positiva esteve associado a risco 37% menor de morte por todas as causas e 55% menor de morte cardiovascular, quando comparado ao não tratamento. 
Outro resultado merece atenção: os benefícios tenderam a ser maiores conforme aumentava o tempo de uso do equipamento durante a noite. Isso reforça uma questão fundamental na prática clínica: não basta ter um CPAP. É preciso conseguir usá-lo.
E é justamente aqui que o acompanhamento do tratamento faz diferença. A escolha da máscara, o ajuste adequado dos parâmetros de pressão, o controle de vazamentos, o manejo do ressecamento e de outros desconfortos, a avaliação dos dados registrados pelo equipamento e a identificação das dificuldades individuais fazem parte do processo de adaptação.
Cada paciente apresenta necessidades diferentes. Para alguns, a adaptação ocorre rapidamente. Para outros, são necessários ajustes e acompanhamento mais próximo. Quando um paciente diz que “não conseguiu usar o CPAP”, a pergunta não deveria ser apenas se ele tentou. Precisamos entender por que ele não conseguiu.
Tratar a apneia obstrutiva do sono exige mais do que prescrever um equipamento. Exige acompanhamento, ajustes e a compreensão das dificuldades individuais de cada paciente. Diante das evidências cada vez mais consistentes sobre os benefícios da terapia com pressão positiva, favorecer a adesão ao tratamento deve fazer parte do cuidado. Afinal, a efetividade de qualquer tratamento também depende da possibilidade de mantê-lo ao longo do tempo.

Referência científica:

Benjafield AV et al. Positive airway pressure therapy and all-cause and cardiovascular mortality in people with obstructive sleep apnoea: a systematic review and meta-analysis. Lancet Respiratory Medicine. 2025;13(5):403–413

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