- Oi, desculpe incomodar, mas você não é o professor Décio?
- Olá! Como vai? Sim, eu sou o professor Décio! Posso lhe ajudar em alguma coisa?
- Não, eu só queria dizer um “oi”. Eu o vi de longe aqui na livraria, escolhendo uns livros, tomei coragem e vim.
- Coragem? Por quê? Sou tão perigoso assim hehe...
- Não, claro que não. Na verdade, é nervoso em te encontrar mesmo. O senhor se lembra de mim? Eu sou o Ivan, fui seu aluno.
- Ah, olha, desculpe, mas nestes anos todos de magistério, quase 40 já, não dou conta mesmo de me lembrar de todos os meus alunos, mas fico feliz que tenha me reconhecido.
- Sim, tudo bem. Eu entendo, mas me deixe contar uma história para refrescar sua memória.
- Claro. Adoro histórias. Sempre digo que...
- “Histórias vendem mais do que fatos”. Eu lembro certinho deste mantra que o senhor aplicava em todas as aulas.
- Sim, isso mesmo.
- Pois bem. Houve uma vez em que um amigo de sala, o Claudinho, chegou com uma lapiseira nova, toda cheia de detalhes, Coisa fina mesmo. Eu fiquei impressionado com aquilo. Eu nunca tive uma lapiseira porque era caro e era meu sonho. As meninas olhavam para a lapiseira e até começaram a falar mais com o Claudinho. Nossa, além de admirado eu comecei a ficar com inveja até kkk. E pior é que aquilo foi aumentando até a hora em que eu tive cinco segundos de bobeira e em uma distraída do Claudinho peguei a lapiseira e guardei em meu bolso. Sim, eu fiz isso. Furtei mesmo.
- Nossa, verdade? E daí?
- Bem, o senhor era o professor naquele dia e quando o Claudinho percebeu o furto, já o chamou, quase chorando, e disse o que havia acontecido. O senhor olhou para a sala e perguntou: “Alguém pegou, sem querer, a lapiseira do Claudinho?”. Ficamos quietos. Todos. O senhor disse: “Pode ter sido por engano. Vejam aí e devolvam”. Ninguém falou nada e muito menos eu. A lapiseira estava em meu bolso, bem guardadinha. E daí o senhor, então disse: “Olha, vamos fazer assim: fiquem em fila aqui na frente e fechem os olhos que eu vou procurar direitinho. Mas fiquem bem de olhos fechados”. E assim foi, um por um. Quando chegou minha vez, eu senti que o senhor achou a lapiseira em meu bolso. Pegou sem alarde e continuou a procurar no amigo ao lado e assim por diante. Daí, ao final, pediu que todos abrissem os olhos e falou: “Achei lapiseira. Está aqui, Claudinho. Vamos todos embora”. Eu confesso que fiquei muito encabulado aquele dia porque eu sei que o senhor pegou a lapiseira comigo e mesmo assim não me dedurou para a sala. Talvez tenha sido até pior ou não, mas o fato é que eu aprendi demais naquele momento e com a dignidade que me restou fui para casa muito arrependido do que fiz e juro que nunca mais agi desta forma. Aprendi demais sobre vida, sobre inveja e sobre educação. O senhor não se lembra mesmo de mim ou deste momento?
- Ivan, desculpe. Eu lembro do momento e da lapiseira sim, mas não me lembro de você e sabe por qual razão? Além de vocês, eu também estava com os olhos fechados!
Na relação entre professor e aluno, às vezes o maior ensinamento não está no que se diz, na exposição ou na humilhação, mas no que se decide não mostrar. Está em fechar os olhos para que o outro possa, enfim, abrir os dele.