Uma reflexão inspirada em Clarice Lispector

Clarice Lispector, com sua sensibilidade única, enxergava beleza e autenticidade na simplicidade de ser “bobo”. Para ela, ser bobo não é sinônimo de ignorância, mas de coragem para agir com pureza, sem medo de parecer ingênuo diante de um mundo tão calculista e muito concreto.
A significante crônica chamada “Das vantagens de ser bobo” é de sua autoria. O “bobo” é aquele que se permite sentir profundamente, rir sem constrangimento e acreditar nas pessoas, mesmo correndo o risco de ser subestimado. Entre as vantagens de ser bobo está a capacidade de viver com menos armaduras, deixando que as emoções fluam livremente. O bobo não se preocupa em ser astuto ou esperto, pois entende que a verdadeira esperteza está em conservar a alma leve e aberta para experiências genuínas. 
Ser bobo, para Clarice, é saber desfrutar de pequenas alegrias e manter a esperança, mesmo quando tudo parece indicar o contrário. “O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: Estou fazendo. Estou pensando”, escreve ela. “A vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar e, portanto, estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. O esperto reclama, em compensação o bobo só exclama! O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade, e como toda criação, é dificil. Por isso que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem aventurados os bobos porque sabem sem que ninguem desconfiem. Aliás não se importam que saibam que eles sabem”.
No fim, só quem é bobo consegue perceber as nuances da vida de forma mais profunda, acolhendo o inesperado sem receio. É um convite à liberdade de ser quem se é, sem filtros ou máscaras, valorizando o que há de mais humano: a honestidade dos sentimentos. Considero especial e carinhosa o jeito que mexe com os mineiros na crônica, quando diz assim: “Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossivel evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo”.
Belíssima crônica para um tempo onde “ser esperto” é a tônica, todos sabem muito, mestres em tempo integral, a escuta desidratada e o verbo excessivo. Excessos, inanição do “Conhece-te a ti mesmo” (um aforismo grego antigo, inscrito no Templo de Apolo em Delfos, e popularizada por Sócrates).
 

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