Vexame no Carnaval

Sandro Villar

O Espadachim, um cronista que avisa: a cobra vai fumar e só falta ela escolher a marca do cigarro

CRÔNICA - Sandro Villar

Data 07/04/2022
Horário 05:30

Com a maioria do povo na maior pindaíba, cadê dinheiro para comprar ou fazer por conta própria a fantasia de carnaval? Ainda bem que o brasileiro é um povo criativo, como todo mundo sabe. 
Do jeito que a coisa vai, com 12 milhões de brasileiros passando fome, segundo o IBGE, o negócio é mesmo apelar para a criatividade. Criatividade é coisa nossa ainda mais no carnaval.
Afinal, este é o país do carnaval, como bem disse o escritor Jorge Amado, que Bolsô Canavieira e os filhos 01, 02 e 03 certamente nunca leram.
Dá para fazer fantasia com garrafa pet? Claro que dá, como também é possível produzir um adereço com tampinhas, rolhas (cuidado revisor para não cortar o h), botões e qualquer outro objeto facilmente encontrado por aí.
Apesar de desempregado, o Quintino optou por uma fantasia pra lá de original e, a meu ver, tão original que ganharia o concurso do Copacabana Palace. Ele gastou pouco, talvez uns dez reais, dinheiro doado pela mulher, dona de um salão de beleza.
Numa tarde nublada, bem de acordo com o tempo sombrio atual no Brasil, o Quintino ouviu um sujeito gritar na rua: "Olha a melancia. Apenas quatro reais", dizia a voz gravada transmitida pelo alto-falante do caminhão de melancia.
Ele se lembrou daquela história de pendurar melancia no pescoço, recomendada a quem quer aparecer, e saiu correndo para comprar uma melancia que não pesou nem três quilos.
Era o que faltava. Quintino descobrira a pólvora ou inventou o pneu oval. Estava ali na sua frente a melancia, quer dizer, a fantasia e pela qual desembolsou uma mixaria, dinheiro de aguardente.
Bastava colocar a melancia no pescoço e cair na folia no baile da terça-feira gorda de carnaval no clube da cidade. Mas surgiu um problema. Como carregar a melancia? Cola ou fita adesiva poderia servir de suporte?
Quintino descartou as duas opções. Ele decidiu pendurar a melancia amarrada com cordões numa faixa de pano verde e amarela. Um gaiato sugeriu um tecido vermelho, e ouviu do folião muitas e más e não poucas e boas.
Na terça-feira gorda de carnaval, último dia da folia, Quintino chegou ao clube por volta da onze da noite com a melancia pendurada no pescoço. Fez mais sucesso do que a Anitta com o hit "Envolver".
Um espanto! Um assombro! "Brilhante e original. Como não pensei nisso antes?", disse um amigo do Quintino. Era uma noite de pop star para ele. A melancia era destaque no peito nu do folião que, por falar nisso, estava quase peladão (vestia uma bermuda com jeitão de cueca).
Depois da surpresa inicial, Quintino caiu na folia. Estava mais bêbado do que o João Canabrava. Lá pelas tantas ele caiu literalmente e justo em cima da melancia. Levou um esbarrão de um folião e ficou, digamos, meio fora do ar por ter batido a cabeça no piso.
Não conseguia se levantar talvez muito mais por causa da bebedeira. Uma idosa, com quase 70 carnavais nas costas, gritou ao ver o que ela tachou de "uma poça de sangue" no peito do Quintino.
Não era poça de sangue coisa nenhuma, como a gente vê nos filmes do Tarantino. Era o suco da melancia esmagada no momento da queda do folião de quase 120 quilos. Quintino foi levado pro Pronto-Socorro. Sem fantasia, sem lenço e sem documento.    
       
DROPS

Quem propõe certas reformas precisa reformar a cabeça.

Sombra e água fresca também em tempos sombrios?

Tenham calma e tomem logo dois calmantes.

Não é o ódio que acaba com o ódio. O que acaba com o ódio é o amor.
(Buda)

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