Vivo, apesar de morto

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 28/03/2026
Horário 04:30

O espírito do morto, que assistia inerte à despedida de seu corpo, comprazia-se com reflexões para além do humano, de modo que as questões comezinhas haviam sido deixadas de lado. Contudo, aquela experiência de se ver ali, em seu sepultamento, despertou-lhe para questões que julgava, estando em outro plano, superadas. Ledo engano, logo viu-se a confabular em torno daquela cena, única, a que nenhum ser vivente pôde um dia contemplar. 
O que o despertou do suave torpor da morte foi a presença, inusitada, daqueles que em vida o desprezavam. Por outro lado, eram muitos os desconhecidos, que estão sempre por aí, mas que naquele local causaram-lhe contínuos estranhamentos. Viu, como de praxe, parentes próximos e distantes, assim como, velhos amigos de outros tempos. Procurou por aqueles que amava, que embora estivessem ausentes, há tempos, de sua vida, estavam ali, indiferentes, é preciso dizer, a cumprir obrigações. 
Reconheçamos, todos nós, que não parece simples lidar com semelhante situação. O espírito, que a tudo assistia estupefato, refletia sobre a absurdidade dos rituais humanos e se perguntava se alguém ali poderia imaginar sua etérea presença. Certamente que não, mas isso não importava mais. “Estou morto”, pensou, concluindo que logo se esqueceriam dele, como todos que passam seus pequenos dias nessas paragens. 
O ritual seguia seu curso, de modo que o espírito se entediava com orações, homilias, incensos e outros ritos, curiosos, engraçados, mas desnecessários. Procurava entre os presentes aquele amigo que se perdera no caminho, aquela companheira das brincadeiras da infância, o colega da escola, o parceiro de trabalho. Nem todos estavam lá. Curiosamente, não se preocupava com destinos, amanhãs, futuros possíveis. Quando tudo aquilo acabasse talvez alcançasse respostas. 
Apesar de tudo, viu-se sozinho, completamente, no plano dos homens e também no outro, a que agora pertencia. Enquanto os tijolos de sua sepultura eram dispostos, um a um, sem cerimônia, pelo trabalhador que pacientemente fazia aquele trabalho, percebia que na verdade, não havia ninguém ali, em seu solene sepultamento, a não ser ele mesmo. “Bem, deve ser assim também com os outros, entre os odiados e entre os amados”. Parecia conformar-se com a baixa audiência do seu último momento. 
Acabada a curiosa celebração, os poucos presentes foram saindo do cemitério, entre risinhos e mexericos, suspiros e lágrimas, poucas, de um ou dois. Logo mais todos retomariam seus afazeres cotidianos, voltando à lavra implacável da existência terrena. O espírito perdeu-se em sentimentos variados, de certa complexidade, cujas palavras humanas são incapazes de descrever com pormenores, embora, possam ser sumariamente resumidas: “Vivi e amei a vida, pessoas e lugares. Sofri horrores, com o trabalho, com a existência, com as dores do mundo e dos homens. Sobrevivi, vivo e morto”. 
 

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