Andando pelo Parque do Povo

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 02/02/2020
Horário 04:25

Domingo feliz depois da vitória suada do meu Todo Poderoso. Resolvo andar no Parque do Povo para desestressar. Aguentar o jeito Carille de jogar é teste para cardíaco. Encosto o carro em frente ao Hotel Muchiutt. Ligo o cronômetro do celular, querendo quebrar recorde. Vou fazer esse longo percurso no máximo em 3 horas. 3 horas? Ué são 15 quadras, ‘tá’ pensando que tenho 15 anos. Lembram do provérbio português: "Devagar se vai ao longe, e quem depressa caminha se consome." Filosofia de vida ou de preguiçoso? Errei grande no tênis. Coloquei o de passeio. Coisa de idoso aposentado.

Começo a andar como no samba de Martinho da Vila: É devagar, devagarinho. Vou me aproximando do quarteirão dos narguileiros. Começo a sentir a lendária fumaça do narguile, o desejo de consumo dessa juventude do WhatsApp. Fiquei zonzo. Assim que respirei a fumaça, senti a experiência de um narguileiro. O sabor da essência era mentolada e o barato é que a fumaça dá a famosa "gelada na garganta". Me senti a Lagarta Azul, personagem do filme “Alice no País das Maravilhas”. Foi um quarteirão inteiro cheirando fumaças de vários sabores. Por pouco não me transformei numa borboleta como no filme. A parada foi tão maluca, tão sinistra, que até agora não sei se era a Alice do Walt Disney ou a Alice do Tim Burton. Acho que era do Tim Burton, pois a lagarta era sábia e se chamava Absolen.

O bagulho é doido demais. A fumaça que sai da boca da molecada parece um cano de escapamento de um carro com o motor fundido. E bem que o Marcão Sanguinário reclama no Face desse vício maluco. Fiquei com muito medo de contrair câncer na garganta. Depois dessa experiência maluca, passa por mim um brutamontes, tipo Hulk, correndo com a camisa do Palmeiras. Ainda sob os efeitos dos sabores adocicados do narguile, por pouco não canto a musiquinha dos palmeirenses: O Palmeiras não tem Mundial, não tem Copinha, não tem Mundial... Já pensou o que ia dar? Afinal sou a lagarta que se transformou em borboleta.

O Serginho e o Rodrigo devem estar rindo lendo essa crônica. Segue o jogo. Lá atrás, passei em frente da pizzaria Dona Oliva, cumprimentei o Magrão, gerente da pizzaria. Continuando o meu andar devagarinho, um casal, lapitado em academia, vem no maior pique empurrando um carrinho de bebê, com seu bebê dentro. Essa criança já nasceu correndo. Uma criança cai da bicicleta, a mãe apavorada chama o maridão que está olhando uma mulher gostosa passando como se fosse um bonde de desejos. O pecado mora no Parque do Povo. Vejo a pluraridade, a diversidade cultural expressada em diferentes tipos de comportamentos passando por mim.

Uma adolescente com várias cores no cabelo, outra com tatuagens na perna parecendo um quadro surreal de Salvador Dali, meninas de mãos dadas, meninos também de mãos dadas, passeiam com sua liberdade de escolha, mostrando que o amor é maior que o medo e tão inerente quanto a nossa própria carência.  Como é democrático esse parque que realmente faz jus ao nome. Deveriam cuidar mais desse espaço tão especial, tão prazeroso, para nosso querido povo prudentino.

Um projeto moderno de paisagismo deveria ser criado para esse importante espaço do povo. É um dos cartões postais da nossa aldeia. A soberba bateu na porta do meu ego, despertou a cruel autocrítica, que estava de saco cheio desse meu andar devagarinho e exigiu que eu corresse. Que otário. E lá vou eu no pique. Chego até o Frangolito e paro para bater um papo com os amigos, Dr. Hamilton, Moysés e o Marcio, proprietário do Bar 33. Degustei alguns pedaços de porção de frango deliciosos, demos boas risadas, me despedi e saí no pique para completar a minha São Silvestre particular.

Chego morto, aliás, bem morto, no fim desse percurso. Queria sentir a sensação do personagem Rocky o lutador, quando ele sobe aquelas famosas escadas na cidade de Philadelphia no filme, levanta os braços para o céu, faz movimentos de um boxeador se sentindo um campeão ao som de Gonna Fly Now. Eu só gemia de dor. Pqp que fase. E tem a volta? Cheirar e expirar a fumaça do narguile de novo? Não vai dar. Chamei um Uber que me levou até o Hotel Muchiutt. Entrei no carro e lembrei de um samba de Paulinho da Viola:

"Que voltarei depressa

Tão logo a noite acabe

Tão logo esse tempo passe

Para beijar você"... oh Mulher Maravilha tô chegando. Vejam vocês.

 

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