Après-Coup

OPINIÃO - Maria Angelica Amoriello Bongiovani

Data 01/05/2020
Horário 04:45

Estamos muito assustados e ansiosos em função de um estado afetivo diferente e inusitado ocasionado pela Covid-19. Ou seja, todos, sem distinção, estamos sendo ameaçados e invadidos. Um desconforto, mal estar e um estado em alerta nos assombra de forma ininterrupta. Como se a qualquer momento fossemos submetidos a um assalto.

Em minha experiência clínica, no arsenal psicanalítico, estou experienciando situações muito atípicas. Como por exemplo, “après-coup”, que é uma noção em tensão condensando duas dimensões que só querem afastar-se uma da outra. De um lado, a violência traumática, do outro, a sutileza de uma re-inscrição, a complexidade de um significado remodelado. Enfim, o acontecimento e a temporalidade. As formas da inscrição psíquica do sujeito humano no tempo interpelam tanto a teoria analítica quanto sua prática.

Qual é o lugar, papel, do efeito de aprés-coup no processo de temporalização? Qual é o lugar do acontecimento na construção da temporalidade? O trauma, ou seja, toda dor a que um dia fomos submetidos em algum momento da vida reverbera durante nosso percurso. Recalcamos, reprimimos e para o inconsciente será encaminhado. Lá permanece à espera de libertações.

Nesse momento de pandemia, observo esse fenômeno vindo à tona. Regressões após anos de trabalho analítico estão saindo das profundezas. Estão em pânico, regredidos, valorizando de forma excessiva o momento. Confusos no espaço e no tempo. Tudo passará. Já vivemos tempos piores. Imaginam vocês, o tempo em que a doença mental era desconhecida. As pessoas eram queimadas e jogadas em buracos. Pensem em como evoluímos.

Divido com vocês um pensamento de Sigmund Freud, escrito em 1888 em sua coleção standard: O nome “histeria” tem origem nos primórdios da medicina e resulta do preconceito, superado somente nos dias atuais, que vincula as neuroses às doenças do aparelho sexual feminino. Na Idade Média, as neuroses desempenharam um papel significativo na história da civilização, surgiam sob a forma de epidemias, em consequência de contágio psíquico, e estavam na origem do que era fatual na história da possessão e da feitiçaria.

Alguns documentos daquela época provam que sua sintomatologia não sofreu modificação até os dias atuais. Uma abordagem adequada e uma melhor compreensão da doença tiveram início apenas com os trabalhos de Charcot e da escola do Salpêtrière, inspirada por ele. Até essa época, a histeria tinha sido a bête noire da medicina. Os pobres histéricos, que em séculos anteriores tinham sido lançados à fogueira ou exorcizados, em épocas recentes e esclarecidas, estavam sujeitos à maldição do ridículo. Seu estado era tido como indigno de observação clínica, como se fosse simulação e exagero. Fé esperança são ingredientes importantes nesse momento. Busque ajuda especializada ao sentir-se identificada com o texto.

 

 

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