Casal de Prudente relata período de quarentena na Itália

Há três anos na Itália, empresários Carlos Weffort e Maria Raquel Lima mora na região da Lombardia, a mais afetada pelo Covid-19

PRUDENTE - ANDRÉ ESTEVES

Data 13/03/2020
Horário 04:02
Arquivo pessoal - Carlos e Maria Raquel residem em Bérgamo, na Itália: Foto: Arquivo pessoal - Carlos e Maria Raquel residem em Bérgamo, na Itália:

Acostumados ao cotidiano agitado de uma cidade marcada pelo turismo de lazer e de negócios, os empresários Carlos Weffort, 45 anos, e Maria Raquel Lima, 45 anos, acompanham atualmente um cenário inédito em Bérgamo, cidade localizada na região da Lombardia, a mais afetada pelo novo coronavírus na Itália: ruas desertas e estabelecimentos fechados. Desde segunda-feira, o casal prudentino, morando há três anos no país europeu, cumpre as determinações do governo italiano para conter a proliferação da doença naquele território, que já soma mais de 15 mil casos confirmados e mais de mil mortes.

Os dois brasileiros deixaram Prudente no fim de 1998 e partiram para o norte do Brasil, consolidando uma carreira no ramo de energia. Depois, seguiram para o Rio de Janeiro, onde Carlos trabalhou por nove anos em uma empresa do segmento. Após uma primeira viagem à Itália há quatro anos e meio, ele e a mulher decidiram retornar ao país, mas, desta vez, para se tornarem cidadãos italianos. “Queríamos um lugar em que nos sentíssemos mais seguros e a Itália nos ofereceu esta oportunidade”, comenta. No início, viveram dois anos na região de Veneto e, em seguida, se mudaram para a região de Lombardia, onde residem há um ano com a gatinha Luna. Hoje, ambas as áreas são a “zona protegida” contra o corona.

No momento em que concede a entrevista a O Imparcial pelo telefone, Carlos observa o estacionamento que dá para os fundos de sua casa. O lugar que antes tinha vagas disputadas pelos motoristas agora dispõe de espaço de sobra para quem deseja estacionar ali. Os inúmeros cafés e bares que movimentam a vizinhança estão fechados para o tradicional “happy hour” e, nos períodos de funcionamento, as cadeiras ao balcão devem ser evitadas e as mesas precisam estar a um metro de distância uma da outra.

Embora preocupado com a situação do país, Carlos soa calmo ao falar com a reportagem. Ele acredita que a quarentena imposta no país é a melhor forma de frear o avanço do vírus. “As restrições estabelecidas não significam que estamos presos dentro de casa. Temos o direito de sair em casos de necessidade, como ir ao supermercado ou a uma farmácia, por exemplo”, afirma. “A quarentena foi muito bem colocada, porque evita a aglomeração de pessoas nas ruas, ainda mais se considerarmos que a Itália tem uma expressiva população idosa, mais suscetível às complicações do vírus”, complementa.

FUNCIONAMENTO

COM RESTRIÇÕES

Carlos também não abandonou o trabalho. Em Bérgamo, ele e a esposa são proprietários de uma empresa de consultoria no ramo de energia e, durante alguns dias da semana, o prudentino atua em uma empresa do segmento de vendas. “Como visito algumas cidades da região a trabalho, o que tenho visto é que, em geral, as fábricas e empresas não estão fechando, mas adotando restrições. Isso é importante, porque implica que o sistema de produção não parou”, avalia.

Os serviços essenciais também não estão sendo prejudicados, destaca o empresário. Ele conta que, num primeiro momento, o que se viu foi uma grande agitação rumo aos supermercados, a fim de garantir que os mantimentos não faltassem em casa. “As prateleiras ficaram vazias porque, a princípio, não houve a reposição adequada, mas agora estes estabelecimentos vêm sendo reabastecidos”, aponta. No dia a dia, quando precisa ir a um deles para comprar suprimentos, Carlos faz uso da máscara por conta da maior aglomeração de pessoas, no entanto, a recomendação oficial é de somente utilizá-la se o cidadão estiver com algum sintoma. “O ideal é intensificar a higienização e evitar os contatos físicos”, reforça.

Para o empresário, estas medidas protetivas são fundamentais para, inclusive, evitar um eventual colapso no sistema de saúde italiano e, com isso, impedir que pessoas que necessitem de um atendimento mais prioritário, como os idosos, por exemplo, fiquem sem o tratamento. “Recebemos a orientação para ficar em casa se manifestarmos os sintomas de um resfriado e só procurar o médico de família, que é o hábito na Itália, quando os sintomas forem mais compatíveis com a doença”, explica.

FAMÍLIA EM

CONTATO

Enquanto Carlos e Maria Raquel estão em Bérgamo, a mãe dele e os pais dela estão em Prudente, preocupados com a evolução do corona no novo país dos filhos. “Fazemos videoconferências frequentes e tento tranquilizá-los. Na realidade, fico mais preocupado com a possibilidade deste cenário chegar ao Brasil e o país não estar preparado para lidar com o problema”, lamenta.

As expectativas de Carlos é que, dentro de 15 dias, os índices de contágio comecem a diminuir – assim como ocorreu na China após a adoção de medidas protetivas –, a fim de que, gradualmente, os italianos possam voltar à vida normal. “Isso porque é triste ver a Itália, que é um país tão feliz, estar praticamente parada. A quarentena certamente será para um bem maior”, considera.

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