Telma da Costa ATRIZ/DUBLADORA Fotos: Divulgação

Foto: Telma da Costa ATRIZ/DUBLADORA Fotos: Divulgação

ENTREVISTA

Duas décadas depois, atriz da região dá voz a Betty, em Toy Story 4

  • 24/07/2019 21:00

OSLAINE SILVA
Da Redação

 

Dentre inúmeros personagens que ela já dublou em português, apaixonados pela série “Grey’s Anatomy” vão se recordar na hora da voz da Cristina Yang! Noveleiros de plantão, da Gaivota, em “Café com aroma de Mulher”; a Donna, de “Barrados no Baile” ou Winifred Banks em “Mary Poppins”. Ela é Telma da Costa, atriz e dubladora de grandes sucessos cinematográficos, inclusive da encantadora animação “Toy Story”, em que ela dá sua voz a Betty, a bonequinha de porcelana. A atriz, que é da região, veio para o lançamento do filme em Prudente no dia da estreia nacional e, atenciosíssima, concedeu uma entrevista super especial para este jornal diário. Telma fala de sua carreira, demonstra ser uma super profissional e, principalmente, um ser humano de sensibilidade incrível!

 

 

Comenta-se que esta é a última aventura do Woody, na saga Toy Story, em que você faz a bonequinha de porcelana Betty.

Sim, há mais de duas décadas eu faço parte do elenco da animação como atriz, dando voz em português para a bonequinha de porcelana Betty [no original o seu nome é Bo Peep], que é uma pastora de ovelhas e volta com tudo. Toy Story é o primeiro filme da Pixar feito em computador e que emplacou no mundo inteiro; logo depois a Disney juntou-se ao time. Apesar do sucesso imediato, os produtores nunca tiveram pressa de fazer o 2 e o 3 [há dez anos foi lançado o Toy Story 3 – qual a Betty não participou], o público se emocionou e estava certo de que aquele seria o último. Por isso, dizer que o Toy Story 4 será o último é precipitado, pois, nunca se sabe, em se tratando de um filme de sucesso. Eu acho que a história tem fôlego para chegar ao 5, mas isso é o público que dirá, por enquanto, é só um palpite meu.

 

Qual é o sentimento em estar em mais uma edição dessa animação que é um tremendo sucesso?

Estar participando do Toy Story 4 foi uma grande surpresa e alegria, pois a bonequinha saiu da casa onde estava com os outros brinquedos: a menina que era a dona dela cresceu e a Betty foi doada para outra criança. Fazia parte retratar ao público uma realidade necessária: as crianças crescem e outras crianças merecem ganhar uma nova boneca usada e fazer outra criança feliz sendo útil a ela enquanto for necessária. Simples assim. Que bom seria se nós, adultos, tivéssemos esse olhar de simplicidade sobre seguir adiante, sendo necessários para quem precisa de nós, simplesmente sendo felizes em nos doarmos e fazer os outros felizes, recebendo afeto nessa doação recíproca. Muitas aventuras nesse roteiro incrível: novos personagens fantásticos e antigos personagens de volta, inclusive, a pastorinha Betthy [que esteve fora por um tempo e que eu tenho o imenso prazer de interpretar na versão brasileira]. Direção impecável do Sérgio Cantú e o padrão de qualidade Disney. Imperdível!

 

E como foi vivê-la novamente após tanto tempo do último filme?

Eu estava nos Estados Unidos, seguindo adiante em novas construções na vida, quando recebi um email da responsável pela Disney na América do Sul, perguntando qual era a possibilidade de eu voltar ao Brasil para a gravação da versão em português do Toy Story 4. Eu aceitei imediatamente, não apenas porque eu amo a série, a Betty e amo dublar, mas porque queria estar mais perto da minha mãe, que mora em Presidente Prudente, e que não estava bem de saúde. O que não me disseram e nem eu imaginava, era que a Betty voltou para a história com nova postura, mostrando a força feminina, a de alguém que não se entregou às dificuldades, alguém que se reinventou; ela voltou com total “empoderamento” da própria vida sem perder a essência do amor ao próximo. Lindo de ver. Eu cheguei a comentar no estúdio com o diretor Sérgio Cantú, meu amigo pessoal, que dirigiu magistralmente a versão em português do filme: “Sérgio, a história de vida que ela construiu fora da casa tem muita semelhança com a minha!” O primeiro momento no estúdio, depois de 20 anos sem ver a Betty, foi emocionante. Foi como rever uma amiga íntima que há anos eu não via. Indescritível. Eu precisei de um tempo, precisei olhar para ela, estabelecer contato, para, enfim, começar o processo.

 

Envolvida em toda essa emoção, como foram as gravações para esse filme?

As gravações para a versão em português do filme aconteceram em um ritmo bem diferente do que o usual [quando em duas semanas grava-se todo filme e em outras duas ou três ele está finalizado entre revisões, mixagem e masterização]. Nesse foram mais de três meses, com revisões nacionais e internacionais, a história e as cenas foram ajustadas, gravadas e/ou regravadas, etc. O processo de mixagem final foi tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra; tudo feito com muita acuidade, beirando à perfeição. O desenho, visualmente falando, é tão rico em detalhes, que, por vezes, nos esquecemos de que se trata de um desenho e não de uma câmera captando imagens reais. Enfim, ‘controle Disney de qualidade’ [não precisa dizer mais nada].

 

Qual é a diferença entre dublar personagens de comédia, drama ou animação de filmes? O que você prefere (ou o que é mais prazeroso)?

O processo que eu citei acima é o mesmo sempre, não há diferença. A diferença está na história que vai exigir com que o ator/dublador traga à tona o seu lado cômico ou dramático com verdade interna. Quanto mais o ator se conhece mais ele se permite à entrega. Eu não tenho preferência: amo atuar, não importa se em drama ou comédia, se são atores na cena ou personagens de animação, pois todos retratam a vida de uma forma ou outra.

 

O que é preciso para ser um dublador?

É preciso estudar teatro para ter um diploma que lhe dê direito ao registro profissional regulamentado na Carteira de Trabalho: DRT [Delegacia Regional do Trabalho]. É preciso ser ator. Depois é necessário fazer um curso de dublagem para aprender a técnica da versão dublada. Próximo passo: visitar casas de dublagem, se fazer conhecido pelos diretores de dublagem através de testes, registro de vozes nos estúdios, e esperar chances de serem escalados para pequenos papéis. Ser um observador da vida e de filmes dublados, aprendendo [por observação] com quem sabe. É um longo processo de espera e de paciência. É preciso foco e determinação, chegar devagar e deixar que o tempo mostre a sua trajetória.

 

Você é de Presidente Venceslau, certo? Há quanto tempo saiu da região? Com que frequência vai para a sua cidade?

Digamos que sim; seria injusto dizer que eu não sou venceslauense. Os meus pais moraram desde sempre em Venceslau; com menos de 7 meses de gestação a minha mãe viajou para São Paulo para registrar o diploma dela de professora [coisa comum na época] e eu nasci por lá, no bairro da Penha... sem enxoval, nada. Nos anos 60 uma criança que nascesse tão prematura assim tinha poucas chances de vida, mas todos acreditaram que eu sobreviveria [menos a minha avó Cordolina, que achava que eu ‘não vingava’]. Eu acho que o meu instinto de sobrevivência nasceu comigo, porque eu sobrevivi ao improvável e cá estou eu, no agito da vida, determinada a fazer o meu melhor nas coisas que vêm às minhas mãos [parafraseando o livro de Eclesiastes, escrito pelo sábio rei Salomão]. Eu voltei com os meus pais para Presidente Venceslau depois de algumas semanas de nascida e ali fiquei até os meus 18 anos [como eu poderia não me chamar venceslauense?]. Eu tenho amigos em toda região, boa parte da minha família mora lá, só uma prima, a minha mãe, irmã, cunhado e sobrinhos moram em Prudente. No momento eu estou no Rio de Janeiro e volto para ‘casa’ sempre que posso, de cinco a seis vezes ao ano quando é possível e quando eu estou no país.

 

Dentre vários personagens que já fez você citou em uma entrevista além da Cristina Yang de “Greys Anatomy”, a Gaivota, em “Café com aroma de Mulher”; e Donna, em “Barrados no Baile”. Por que as citou dentre tantos trabalhos?

Eu poderia ter citado outras tantas personagens, dezenas, que, de uma forma ou outra [principais ou secundários], fizeram uma participação que mudava o destino da trama. Eu poderia citar a Mary Ann, da animação “Saúdem todos o Rei Julien”; Sra. Turner [“Os padrinhos mágicos”]; a Diamante Azul [Steven Universo]; Rose Quartz [Steven Universo]; Winifred Banks [Mary Poppins]; a mãe do The Flash, etc... A Gaivota porque foi uma novela colombiana que fez sucesso mundial, e no Brasil foi record de audiência [reprisada três vezes]; e a Cristina Yang, do seriado Grey’s Anatomy (que fez parte de dez temporadas). As duas têm alma de guerreira, de alguém que foca em seus objetivos, cheias de paixão pelo que fazem, sem perder o caráter e o olhar para com o próximo, seu semelhante, amigos e família. A série “Barrados no baile” marcou uma geração de jovens e adolescentes, e a Donna fazia parte do elenco principal; a versão brasileira foi feita em uma época em que todos os atores da cena ficavam juntos na bancada gravando, e isso possibilitou fazer amigos que estão profundamente em minha vida até hoje, de todas as formas; companheiros por toda vida! Enfim, não importa a personagem que eu duble, quando estou em contato com pessoas comuns, às quais eu nunca vi, e se elas assistem a filmes na versão brasileira, elas reconhecerão a minha voz, e, muitas vezes, de personagens que eu havia até esquecido.

 

Dra. Cristina Yang de “Grey’s Anatomy” é uma personagem marcante. Uns odeiam outros a amam. Como você a define?

A Cristina Yang, eu acho que o expectador que a odeia a odiará só até a “primeira página”, porque um olhar mais atento fará com que veja que a Cristina é uma personagem que retrata a vida, retrata você que está assistindo à série: nós temos todos os elementos dentro de nós, por vezes somos mesquinhos, por vezes impacientes, orgulhosos, vaidosos, somos capazes de gestos dos quais nos envergonhamos em seguida; mas também podemos ser gentis, amorosos, generosos, termos prontidão em ajudar a um amigo a qualquer tempo e hora, nos importar com o próximo, e não perdermos a nossa essência. A Cristina não é mau-caráter, ela tem valores profundos de humanidade, e tem uma honestidade que choca; e ela também tem muito humor [fundamental]. Enfim, ela é um ser-humano normal, como você e eu. Apaixonante. Talvez por isso ela seja tão marcante. Eu já ouvi depoimentos de pessoas que se decidiram pela medicina e pela cardiologia por causa da Cristina Yang. Claro que eu fico orgulhosa dos meus 50% de participação nessa escolha, porque eu acredito que eu e a Sandra Oh fizemos uma parceria ao interpretarmos essa personagem.

 

Você fala dos seus personagens com uma sensibilidade incrível. Você se mostra um ser humano especial. Uma pessoa impressionável. O que me diria?

Nossa [risos]! Na vida real todos os personagens que interagem na nossa vida mudam o nosso destino, por isso não há ninguém menor ou maior/melhor do que ninguém. Quando eu paro para ajudar uma pessoa cujas compras caíram no chão enquanto caminhava, eu mudei o meu destino e o dela. Aquele tempo gasto poderá ter salvado a minha vida ali adiante ou ali no momento da doação, e/ou salvado o espírito abatido daquela pessoa. Nunca me esqueci de uma história real que eu li sobre o depoimento do presidente da República dos Estados Unidos, Nixon, saindo tarde da noite de uma reunião na Nasa, acertando detalhes sobre a primeira viagem do homem à Lua. Estava lá o faxineiro limpando o chão e ele perguntou-lhe porque estava ainda lá, trabalhando, fora do horário do seu expediente. Aquele senhor respondeu: “Estou aqui ajudando o homem ir à Lua, senhor presidente”. Que coisa maravilhosa quando todos se sentem parte da engrenagem, quando os patrões são justos, os empregados empenhados, e tudo funciona por um bem comum.