Na linha de frente contra a Covid-19: Julia Queiroz

Médica residente em emergência pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz, ela também atua em pronto atendimento no SUS, e consegue ver o contraste dos serviços

PRUDENTE - THIAGO MORELLO - Da Redação

Data 23/05/2020
Horário 10:28
Cedida - Julia Queiroz, médica residente em emergência Foto: Cedida - Julia Queiroz, médica residente em emergência

“Não é um momento muito agradável para o profissional de saúde. Ele precisa ter outras coisas para se apegar, para ajudar nessa parte da saúde mental”, diz Julia Queiroz, 28 anos, médica residente em emergência, no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, na capital paulista. Ela é mais um dos profissionais que estão na linha de frente contra a Covid-19. Em atuação pela rede pública e privada de saúde, a profissional consegue ver o contraste entre os serviços disponíveis aos profissionais.

Tanto que, onde faz residência, ela destaca que é possível “ter um pouco mais de regalia”, quando o assunto é o uso de EPIs (equipamentos de proteção individual), por exemplo, já que a unidade dispõe de mais estrutura. Pelo SUS (Sistema Único de Saúde), até por ter mais profissionais e depender de verba pública, a aquisição de tais itens reflete na hora de serem distribuídos entre os profissionais.

“Ainda não tive o desprazer de lidar com a falta deles, mas há condições para o uso, quando se está em atuação pelo serviço público. É tudo contado e deve ser usado com cuidado, porque o excesso para um pode significar a falta para o outro”, completa. Com isso, Julia pontua ainda, em mais um exemplo, a diferença da roupa, que na rede particular dispõe de privativo, enquanto na pública é roupa pessoal e jaleco. “Mas em todos os casos há a paramentação com luvas, máscaras e óculos, quando for o caso de ter o contato com alguém infectado”, frisa.

Em um dos serviços, a médica também cuida de transferências, isto é, encaminhar paciente de casa para o hospital, ou de uma unidade de saúde a outra. Para ela, esse é um dos momentos de mais cuidados. Isso porque, a cada caso atendido, inicia-se o processo de limpeza do veículo. “A gente faz uma espécie de terminal de limpeza gigantesco. Teto, maca, aparelhos. É cansativo, mas necessário”, frisa. Ela ainda lembra que todos os aparelhos ficam guardados. E o celular? Sempre retido, mas se precisar usar, ele deve estar encapado já.

ROTINA

E FUTURO

São detalhes e cuidados necessários que podem valer uma vida. Mas são detalhes que também mudam uma vida. Cada passo minucioso reflete na condição do trabalhador. Lembra que ela falou sobre não ser um momento agradável para o profissional de saúde? Era isso que Julia tentava descrever. Cada um deles tem a preocupação de viver, dentro e fora do hospital, de uma maneira que não sejam afetados pela Covid-19, não só por eles, mas porque existem centenas de pessoas que precisam deles.

“Ainda não cheguei numa exaustão total. Mas a gente nota que os profissionais estão mais cabisbaixos, emagrecidos, assustados, cansados, com medo. Ninguém estava preparado para isso. Então, rola sim um cansaço, tanto emocional quanto físico”, lamenta.

O que reflete nos sentimentos. À reportagem, ela confessa que já chorou, mas por uma questão de medo, por uma questão de não saber como pode estar toda a situação no dia seguinte, na semana seguinte ou até mesmo no mês seguinte. “É complicado acompanhar a evolução da doença, porque dá muito medo. Ninguém sabe ao certo o que vai ocorrer. Sabemos que o isolamento é o certo, mas fica o tempo todo nessa insegurança. Vai ter que escolher ventilador pra pessoa? Não sei. O maior obstáculo: medo do futuro”, questiona.

É como se faltasse um roteiro. Eles trabalham no escuro, sem saber o futuro. Nos diagnósticos dos pacientes, Julia também comenta que não há um padrão. “Muitos chegam acometidos e outros não tão acometidos”, diz. Isso falando de síndrome respiratória aguda, sintomas abdominais. Cada caso é um caso e por isso é difícil entender a evolução de um quadro geral, ainda de acordo com ela, mas que é bem mais complicado em idosos e pessoas com comorbidades. “Sei que já vi gente morrer [na rede pública], mas também pessoas que foram entubadas e venceram essa luta”, desabafa.

Por morar com o namorado, que também é médico e está na linha de frente, Julia lembra que em casa o medo é menor, até por não ter outras pessoas. Mas, da mesma forma, a cautela é igual: tirar os sapatos antes de entrar em casa, isolar as roupas usadas na rua, evitar tocar nas coisas e ir direto para o banho. “Uma mudança de rotina completa”, afirma.

SAIBA MAIS

Julia nasceu em Catanduva (SP), mas estudou de 2011 a 2016 em Presidente Prudente, onde se formou em Medicina pela Unoeste (Universidade do Oeste Paulista). Antes disso, já havia morado na capital paulista e, portanto, sempre quis voltar.

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