Torre de Babel

OPINIÃO - Arlette Piai

Data 19/05/2020
Horário 04:13

Parece que estamos em dois Brasis que fala duas línguas contraditórias, uns defendendo a volta ao trabalho, outros a quarentena. Após quase dois meses de isolamento, é justificável a volta ao trabalho principalmente à população que não poderá levar a comida à mesa. Assustador, no entanto, são os incentivos ao fim da quarentena, como se o vírus já tivesse sido vencido. Economia e saúde são parceiras inseparáveis e a defesa “volte ao trabalho” é perigosa: abre portas para a aceleração de mortes, aumento de doentes que pode acabar levando à “escolha de Sofia”: quem será escolhido para viver ou morrer. 

Depois de um bom início de respeito à quarentena em São Paulo, ocorre a queda no nosso Estado e em todo território nacional - com significativo aumento de infectados e de mortes. Essa atitude parece com o paciente que interrompe o tratamento de antibiótico na primeira melhorada, mas em breve tem que aumentar a dose e enfrentar mais agonia. Essa Torre de Babel que ocorre no Brasil gerou o pior impasse: isolamento baixo e economia baixa. Ninguém merece os dois Brasis das últimas décadas: “eles contra nós ou nós contra eles” enquanto está chegando assustadoramente a quase 1.000 mortes a cada 24 horas.  O honesto e trabalhador povo brasileiro merece, no mínimo, um mínimo de paz e menos contradições.

Não temos como na Coréia do Sul os trunfos para vencer rapidamente a epidemia. Aquele país conta com grande indústria biomédica que produziu teste em massa. Tem tecnologia para rastrear os passos dos doentes contaminados e afastá-los. E não somos herdeiros da cultura oriental cujo pilar básico da sociedade é a valorização do coletivo. 

O Brasil é o Brasil com suas glórias e limitações. De acordo com o coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus de São Paulo, 50 mil mortes teriam ocorrido no nosso Estado se a quarentena da capital não tivesse sido rápida “no início”. Quantos de nós estaríamos nessa estatística? Flexibilização para abertura de lojas não essenciais, neste momento, é um risco cujo preço pode não ter preço. É preciso que ocorra nacionalmente o bom senso com o isolamento até a queda da curva de infectados e de mortes. E que o bom senso prevaleça também no nosso município.

 

 

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