A IA tem nos deixado mais  inteligentes ou mais ignorantes?

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 28/04/2026
Horário 06:00

Os modelos de Inteligência Artificial têm nos tornado mais inteligentes ou mais ignorantes?
Como professor universitário, jornalista e pesquisador em Comunicação, tenho acompanhado de perto os usos da inteligência artificial. Apesar das descobertas impressionantes, algo me incomoda: a facilidade com que muitos desconsideram o saber humano e o substituem por sistemas que, embora calculem muito bem, ainda não pensam como nós.
Sim, até onde pude observar nesse campo ainda recente, a IA não é capaz de pensar de fato, mesmo em seus modelos mais avançados disponíveis ao público. Isso não significa que nunca será, mas, por ora, seu funcionamento se baseia em processar dados e oferecer respostas probabilisticamente adequadas. Em outras palavras, como disse, ela calcula bem, mas não pensa.
E é justamente aí que reside o problema. Muitas de nossas perguntas não podem, ou não deveriam, ser respondidas de forma tão banal ou mecânica. 
Recorre-se à Inteligência Artificial hoje para quase tudo: desde a forma como se parafusa um quadro a situações complexas como terapias comportamentais e planejamento estratégicos. Tudo em um bolo só.
Alguém poderia argumentar que a Inteligência Artificial amplia nossas capacidades cognitivas, permite automatizar tarefas repetitivas, libera tempo para atividades mais complexas e criativas e eu confirmo tudo isso. Confirmo e concordo, mas posso afirmar também que o problema não está na ferramenta, mas na forma como a utilizamos.
Em alguma medida, é possível fazer bom uso da IA, mas ainda há muitas situações em que o pensamento humano supera qualquer cálculo, por mais sofisticado que seja, especialmente diante de ambiguidades e adversidades. 
Volto, então, à pergunta inicial: a Inteligência Artificial tem contribuído para ampliar nossa ignorância? Em muitos casos, sim, sobretudo quando aceitamos suas respostas sem questionamento. Mais do que ignorantes, corremos o risco de nos tornar pseudointeligentes, pessoas que aparentam saber muito, mas compreendem pouco.
E o problema é que a pseudointeligência não tem limites. Quanto mais o cérebro se habitua a ela, mais tende a segui-la, já que esse caminho exige menos esforço.
Se duvida, observe algo simples: quantos números de telefone você ainda sabe de memória? Nem mesmo os de pessoas próximas. Isso indica que certas funções cognitivas estão sendo pouco exercitadas à medida que delegamos tarefas simples ao smartphone.
Agora amplie esse raciocínio para outras atividades que antes exigiam reflexão e hoje são terceirizadas para a inteligência artificial. Na educação, por exemplo, já é comum que alunos peçam à IA resumos de textos que sequer leram. No ambiente profissional, há quem utilize a ferramenta para redigir e-mails complexos e, depois, não consiga sustentar uma reunião sobre o próprio conteúdo. No dia a dia, seguimos rotas guiadas por GPS mesmo em trajetos conhecidos, abrindo mão da nossa própria orientação espacial.
A ignorância é uma doença perigosa, que não traz sintomas aparente, mas que aos poucos pode tirar de nós o nosso maior trunfo em relação aos outros animais: a capacidade de pensar. 
E se continuarmos terceirizando o pensamento, não será a IA que ficará mais inteligente, seremos nós que ficaremos menos.
 

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