Estamos às voltas, constantemente, com a barbárie, sendo polarizada e atuada, em todos os vértices, sentidos e interfaces na e da sociedade em que vivemos e habitamos. Já não suportamos tanta onipotência, injustiça, desigualdade, vaidade, indiferença e corrupção. A empatia é o que nos humaniza.
Hannah Arendt (1906-1975), filósofa, historiadora e professora, nos faz refletir muito em suas colocações e pensamento e nos diz que: “A morte da empatia humana é um dos primeiros e mais reveladores sinais de uma cultura à beira da barbárie”. A empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, entender e compartilhar os sentimentos deles. É como se você conseguisse sentir o que a outra pessoa está sentindo, sem necessariamente passar, pela experiência em que ela esteja experienciando. É uma forma de ligação emocional que ajuda a entender melhor as pessoas e criar relações mais profundas, vinculares.
No contexto do nosso ofício de psicanalistas, a empatia é fundamental para o entendimento do analisando. É uma das mais poderosas ferramentas que temos no nosso arsenal psicanalítico no dia a dia. Permite criar um vínculo de confiança e entender melhor os processos inconscientes. O inconsciente é uma instancia psíquica atemporal. E como diz o psicanalista Frances Jean Laplanche (1924-2012), “O inconsciente é constituído por resíduos da tradução, elementos que não foram integrados no processo de simbolização e que permanecem como mensagens enigmáticas não traduzidas”.
Precisamos traduzir, nomear o enigmático, o que causa o grande sofrimento psíquico ao analisando. O irrepresentável desencadeia grandes fixações em fases primitivas, impedindo o desenvolvimento. É como se você conseguisse entrar no mundo interno ou psíquico do outro e ver as coisas pela perspectiva dele. Precisamos da empatia e os seus desdobramentos: escuta afinada e atenta, continência, enfim, capacidade de reverie.
A empatia é tão importante e extensiva a todas as relações humanas. A falta de empatia em relacionamentos pode ser devastadora. Quando um parceiro não consegue se colocar no lugar do outro, pode gerar um ciclo de desentendimento e violência. No caso de feminicídio, muitas vezes é um extremo de controle e falta de empatia, que pode ser um fator de proteção, auxiliando a entender e respeitar os limites do outro. No trabalho, ajuda a resolver conflitos e melhorar a comunicação. E em sociedade, pode até ajudar a reduzir a violência e aumentar a compreensão mútua.
A educação é o alicerce para desenvolver a empatia desde cedo. “Tudo começa em casa”, nos diz o psicanalista D.Winnicott (1896-1971). Ensinar as crianças a se colocar no lugar do outro, a ouvir e a respeitar os sentimentos alheios é fundamental. Isso pode ser feito com pequenas ações do dia a dia, como conversar sobre os sentimentos dos outros, ler histórias que mostrem diferentes perspectivas e incentivar a resolução pacífica de conflitos. E as escolas podem reforçar isso, ensinando habilidades sociais e emocionais. É uma combinação de esforços, família e escola para criar uma geração mais empática. É um antidoto para curar doenças incuráveis e tornar o mundo melhor.