“Agnus Sei”

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 11/10/2020
Horário 07:55

Um menino residente no bairro de Noel Rosa subia uma escada levado pelo seu avô até uma grande caixa d’água. Chegando lá em cima, seu avô tira a tampa e o menino vê o reflexo da lua na água. Seu avô diz: “Essa é a lua de Vila Isabel”. Um outro menino, natural de Ponte Nova no Estado de Minas Gerais, sente o mundo nas cordas do seu violão. 
O menino da lua de Vila Isabel vira um jovem estudante de Medicina. O menino do violão está cursando o curso de Engenharia na cidade de Ouro Preto. Os dois se conhecem no Rio de Janeiro apresentado por um amigo em comum. Conversam e sentem que o destino está tramando algo grandioso na vida deles. Cada um vai seguindo a sua vida. 
O jovem estudante de Engenharia conhece o poeta Vinícius de Moraes em Ouro Preto, que fica encantado com o talento desse jovem violonista. O poeta percebeu que estava diante de um gênio do ritmo do violão.  Com sua imensa generosidade, diz: Quando for ao Rio me procure, está aqui meu telefone. O estudante de Medicina escolheu fazer especialização em Psiquiatria. Resolve ir a Ouro Preto rever aquele cara de barba que deixou uma melodia bonita no seu coração. Chegando em Ouro Preto, não encontrou o novo amigo, pois esse estava em Ponte Nova. 
Ainda bem que a juventude não tem preguiça, e lá vai o futuro psiquiatra de carona para a cidade de Ponta Nova. Se encontram e o destino sorri. Desse mágico encontro, nascem três composições. Era o ano de 1971. O cara do violão estava novamente no Rio de Janeiro e procurou o poeta que prontamente o recebeu com toda a atenção e carinho. O apresentou a vários amigos músicos, poetas, artistas e jornalistas. Nesse tempo, o compositor Sergio Ricardo, autor da trilha sonora do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, que ficou conhecido por ter quebrado o violão no Festival da Record em 1973, sugeriu ao jornal O Pasquim o projeto Disco de Bolso. 
A cada mês viria encartado no semanário jornal um compacto simples. Uma música teria que ser de um compositor conhecido e a outra seria de um compositor desconhecido. O músico conhecido seria Tom Jobim e o desconhecido seria o cara do violão, chamado João Bosco. Tom Jobim iria gravar “Água de Março”. Lembram das três músicas que os dois compuseram em Ponte Nova? Pois é, João Bosco escolhe uma delas, chamada “Agnus Sei”. O jovem psiquiatra se chamava Aldir Blanc (in memoriam). 
João Bosco fez a música trazendo a aura barroca que o envolvia quando estudava Engenharia em Ouro Preto e Aldir Blanc faz uma letra misturando religião, fé e amor, nascendo uma letra das mais emblemáticas da nossa música. Aldir Blanc já demonstrava ser um Garrincha das palavras que driblava verbalmente tonteando a todos os ouvintes e ao mesmo tempo convidava para dançar. João Bosco, um Rei do Swing, inovava com sua batida de violão sem paralelo no mundo musical. 
Aldir já tinha composto em 1970 “Amigos é para essas Coisas” cantada pelo grupo musical MPB 4 e João Bosco estava gravando em 1972, pela primeira vez essa canção que ficou imortalizada na voz de Elis Regina. “Agnus Sei” revela a consciência do indivíduo assumindo a pele de cordeiro sacrificado pelos interesses mesquinhos da hipocrisia da sociedade: “Meu profano amor/ eu preferi assim/ a nudez sem véu/ diante da Santa Inquisição/ Ah o tribunal não recordará/ dos fugitivos de Shangri-lá/ o tempo vence toda a ilusão...

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