Cabo — o preso chamou.
— Que foi?
— A porta, aqui, tá fechada.
— I num era pra tá? Isso aqui num é uma cadeia?
— Deixe de brincadeira, Cabo. Abre aqui, vai...
O cabo se aproximou da cela, guardando uma certa distância, olhando o preso meio de lado, com algum desprezo.
— O Dr. Delegado mandô qui eu trancasse a porta. Ocê vai ficá aí por 15 dia. E esses 15 dia eu quero sê tratado como otoridade. Se me desrespeitá mais uma veiz nois vai cunversá. Seu Delegado falô qui ocê tava cherano lança-perfume no Carnavar.
— O carnaval foi há mais de quatro meses! Só por isso vou ficar 15 dias preso?
— Preso ocê já era. Agora vai ficá sem as regalia. E é suspeito do atentado!
A explosão tinha abalado e acordado a cidade. Não precisava muito, pois era uma cidade pequena. Foi um corre-corre dos diabos, daqueles que moravam mais perto.
A jardineira do Mota, que estava sob o telheiro, no fundo do quintal, foi pelos ares. O telheiro também. Corre pra cá, corre pra lá, “traz água, gente!” — “joga terra” — “a bassôra di varrê o forno!” — “Abafa, abafa!” – “Sai daí, minino!”
Não adiantou. Os baldes de água frigiam na carcaça fumegante. Sobraram o chassi e as rodas. Sem os pneus.
O tabloide semanal de uma folha dobrada que sairia domingo já tinha a notícia: “Os usuários ficaram com os olhos marejados, diante de descomunal tragédia. Demos graças ao Senhor celestial pelo ocorrido ter se dado fora do horário de expediente”
E não era pra menos. A jardineira do Mota era o único meio de transporte coletivo entre a cidade, o Ribeirão e as fazendas vizinhas. Tinha uma espécie de cesta, na rabeira, pra acomodar as malas, sacaria e cargas. Aberta como os bondes, facilitava a entrada e saída dos passageiros que ocupavam os bancos de ripa que iam de lado a lado.
— Foi ele! — corria à boca solta pela cidade.
— Mas ele num tá preso?
— Ah, ocêis num conhece essa gente!
Não bastasse tudo, o Cabo veio com mais uma novidade para o preso.
— In-co-mu-ni-cá-veu. Vai ficar 15 dias no regime de segurança máxima, sem direito a visitas...
— E alguém me visita?
— Pode querê, ué. E vai ficar querendo. E tem mais: vai ficá sem falá com o seu adevogado...
— E eu tenho advogado?
— Num tem porque num qué.
— Num vô nem barrê a carçada? Capiná o derredor?
— E tomá pinga no Furgêncio? — caçoou o Cabo arqueando uma sobrancelha.
— Eu só vô lá pra matá o bicho, pra podê comê essa gororoba qui ocêis dão pra gente - reclamou.
— Num sô eu qui faiz a comida. Qué recramá, fala com a Inezita, ou muda de “pensão”, uai. E tem mais, Nicodemo, hoje eu vô revistá a cela.
— Nicodemo? Ocê nunca me chamô de Nicodemo...
— É que de agora em diante, nesses 15 dia, as coisas vão sê assim, mais no respeito... Vai sê Nicodemo e não Nico, pra acabá cum intimidades.
O Cabo entrou na cela, devagar, depois de verificar se estava com o seu 38 na cintura. Desabotoou o coldre e olhou cuidadosamente pelos cantos, varrendo tudo com os olhos. Viu o telefone num canto, enleado.
— O telefone. Eu vou confiscá o telefone.
— O meu telefone? — reclamou Nico.
— Sim, senhor.
— Mas é um telefone de latinha de massa de tomate e eu só falo com o Tonico... e ele só tem nove anos!
— Nunca se sabe. Hoje em dia as coisa tão tão mudada... Tão achano que ocê tem gente lá fora e que foi ocê que mandô explodí a marinete do Mota, por represália.
— Eeeeuu? Que bobages é essa, Cabo?
— É. Eu to di ôio n’ocê. Que que qué dizê esse negócio de PCC que ocê escreveu na parede?
— PCC? Ah, é um partido político que vou fundar: Partido da Comunidade Carcerária.
Três dias depois, com tudo já calmo por ali, Julinho chegou de carona da Fazenda Velha. Desceu no bar do Deco, bateu o chapéu na coxa pra tirar o pó e colocou-o na cabeça numa grotesca imitação de Santos Dumont.
— Ô Deco, põe uma aí pra mim. Esse puêrão tá di lascá.
Julinho era um furador de poço, pras famílias e pras fazendas. Único em mais de seis léguas em todos os pontos cardeais.
— Fazeno argum poço, Julinho?
— Na Fazenda Véia. Depois de dois metro de fundo, deu numa rocha que só veno. — Virou o copo num só gole — Bão, vô lá no Mota pra vê umas coisa... — disse tirando o dinheiro do bolso e jogando sobre o balcão.
— Ele num tá aí. Viajô.
— Viajô?
— Cê num sôbe? A marinete do Mota virô bagaço. Faiz treis dia.
— Trombada? Morreu arguém?
— Explosão. Morreu ninguém, não. Foi de noite... tava debaxo do teiêro. Ficô só o volante e as roda. Tão falano qui foi o Nico que tá preso. Sei, não. O Nico me parece boa gente...
Julinho ficou um tantinho de olho arregalado, mas mudo. Se despediu e saiu. Chegou na Fazenda Velha, de carona, e foi logo procurando o seu Ignácio no escritório.
— Seu Ignácio, vô precisá comprá mais dinamite pra quebrar a rocha do poço. Aquela que eu esqueci na marinete do Mota, já era!