“Língua, pensamento, literatura”

O crítico literário, ensaísta, professor e sociólogo, Antonio Candido (1918-2017), foi colunista da Folha da Manhã de 1943 a 1945. Como parte da série Colunas Eternas, que celebra 100 anos da Folha, recuperando textos de importantes colunistas do jornal, re-publicaram o texto: “Língua, pensamento, literatura”. O texto foi publicado em 25 de junho de 1944 e trouxe em suas entranhas, impressões sobre a língua portuguesa, referências extremamente importantes. 
Podemos pensar hoje, em 2021, sobre sua importância e complexidade. Ele escreve que: “É sabido que uma das tragédias de quem escreve em português é o fato da nossa, ser uma língua que, a bem dizer, ainda não foi suficientemente polida pelo pensamento. O português ainda não foi suficientemente pensado, como as outras línguas europeias. Ora, os vocábulos são como os seixos dos rios. A princípio, duros e ásperos calhaus cheios de pontas e arestas. A água, todavia, passa longa e pacientemente sobre eles. Os anos sucedem aos anos, e os seixos vão se arredondando, e sendo atenuados, tornando um pequeno bloco polido, doce ao contato e à vista”. 
Ele salienta que, “no Brasil, temos fenômeno parecido em Machado de Assis. No Sr. Ciro dos Anjos, encontramos qualquer coisa de mais polido e integrado - o pensamento recebendo de fato, um tratamento estético. Um senhor Jose Lins do Rego é um grande romancista, não há dúvida, e o senhor Jorge Amado, talvez seja ainda maior. Enquanto não for pensada convenientemente, uma língua não estará apta a coisa alguma de definitivo, nem dará asa a nada de mais sólido do que a literatura periférica, ou seja, aquela que dá voltas em torno de um problema essencial sem conseguir por a mão sobre ele.
Para que a literatura brasileira se torne uma grande literatura, é necessário que o pensamento afine a língua e a língua sugira o pensamento por ela afinado. Uma dupla corrente, da qual saem as obras-primas e sem a qual dificilmente se chega a uma visão profunda e vasta da vida dentro da literatura. Esse texto chamou minha atenção, com relação à invasão que a nossa língua portuguesa vem sofrendo, ainda pugnando por nascer, ou por um lugar ao sol. Refiro-me à língua inglesa. 
Estamos vivenciando uma realidade constante no dia a dia, em que frases e textos estão sendo compostos com repertórios de vocábulos híbridos. O estrangeirismo invadiu a língua portuguesa. Poderíamos estar afinando a orquestra da língua portuguesa e assim apropriando de pesquisas a respeito de vocábulos genuínos e, porém, tão desconhecidos. E assim, nossa língua portuguesa encontra-se desfocada e com parcos investimentos com relação ao pensamento, como diz Antonio Candido, sem tratamento estético.
 

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