No meu tempo era diferente

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 10/03/2026
Horário 06:00

Toda vez que olho para meus filhos ou alunos entretidos com o mundo digital, vivendo entre bits e Whats, sou tomado por uma estranha sensação de que o tempo não apenas passou, mas deu um salto quântico. Daí, logo me vem à cabeça uma expressão da qual não sou fã porque flerta com o saudosismo, mas é importante dizer: “no meu tempo era diferente”.

No meu tempo era diferente quando era criança. Já começava pela ausência total do celular, mas ainda assim outros perigos eletrônicos nos rondavam, como a TV e os videogames. Eram muito menos perigosos em relação ao aparato digital de hoje. Neste sentido, a rua era o nosso “espaço de convivência”, nosso domínio, ainda mais em cidades pequenas. A gente brincava, ralava, sujava, caía, levantava, brigava, batia e apanhava. Não necessariamente nesta ordem. Mas a impressão que tenho é que meu filho não terá 10% do joelho ralado que eu tive. 

No meu tempo era diferente quando chegava a idade de prestar vestibular e logo sair de casa. A escolha da profissão nunca foi fácil e nunca será mesmo. Ninguém tem bola de cristal de que alguém vai dar certo na vida ou não. Mas hoje, o excesso de informações a que as novas gerações têm direito, aliado a uma certa complacência dos pais, faz com que muitos jovens cheguem aos 25, 30 anos ainda muito perdidos em relação ao futuro, e pior, muito pouco preparados para uma vida independente.

No meu tempo era diferente quando a gente estudava. Colégio? Básico. Aulas e professores, decorebas e provas? Tudo ok. Já na universidade, a vida se abria em um turbilhão de possibilidades. O mercado de trabalho assustava, mas não menos do que ficar de fora de uma festinha de república. O lance era estudar para ser alguém na vida e a gente só ia. Pelo menos eu fui, cumprindo meu deveres e o contrato social que eu tinha com meus pais de me preparar bem para o futuro.

No meu tempo era diferente quando a gente estava no mercado de trabalho. Independentemente da área de ação, da profissão escolhida, trabalho nunca foi um espaço para reivindicação de direitos em excesso ou reclamações para todo lado. Trabalhar sempre foi, e sempre será, o verbo necessário para ser alguém na vida e ponto. O resto é discussão de boteco.

Bem, podia continuar aqui remoendo essas comparações, alongando essa lista de como tudo era melhor ou pior, afinal, essa é a sina de quem viveu um tempo e agora assiste outro se desenrolar. 

Mas talvez tenha uma coisa que não é e nunca será diferente: viver sem ser refém de nada, absolutamente nada. O mundo muda, as ferramentas mudam, os perigos mudam. Mas a essência do que somos, humanos navegando juntos nessa travessia e resolvendo os problemas como era e é possível, continua sendo a mesma velha história. Só recomeçada a cada geração.

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