​​​​​​​“O homem tem dois olhares um enxerga e o outro vê...”

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 08/12/2019
Horário 06:02

Lalim descia as ruas do morro do Macaco, com seu chapéu panamá, camiseta listrada, cantando um samba de Zeca Pagodinho: "Se eu quiser beber eu bebo, se eu quiser fumar eu fumo, pago tudo que consumo com o suor do meu emprego"... Estava feliz, sua mulher estava grávida. Sua primeira filha estava chegando a esse mundo de ilusão.

Gostava do nome de Carolina. É o nome de uma princesa, dizia orgulhoso. Sorria para todos que passavam por ele. Pela primeira vez sentiu a felicidade abraçar seu coração. No meio do caminho encontrou Sabino mais conhecido como "Olho Grande" e seus homens sem sonhos. Comandava o tráfico de drogas no Morro do Macaco.

Era ligado a facção Comando Vermelho. Lalim nunca se interessou pelo tráfico. Era amigo de infância de Sabino. Tá tudo bem Lalim? Rosa está gravida Sabino, minha vida não poderia estar melhor. Precisa de alguma coisa? Não, está tudo como Deus gosta. Não mesmo? Qualquer coisa me procure. Obrigado Sabino. E subiram o morro com suas armas carregadas de ódio. Lalim gosta dos livros de Jorge Amado principalmente o livro, Jubiabá que conta a história de um dos primeiros heróis negros da literatura brasileira. Martinho da Vila compôs um lindo samba baseado nesse livro que ele se identifica com seus versos poéticos: "Um homem tem dois olhares, um enxerga e o outro vê, tem o olho da maldade e o olho da piedade, tem que ter olho bem grande pra poder sobreviver".

Carolina iria dar um pouco de eternidade a esse negro, bom malandro, ritmista da bateria da escola de samba de Vila Isabel. Sabia da ruindade do mundo e só assim teria mais força para continuar nos caminhos de Deus. Amém irmão. Já tinha perdido muitos amigos ainda adolescentes para a violência do tráfico. Sabe o que é o errado e o certo. Como escolher esses dois caminhos vivendo na miséria de gente sem oportunidades e esquecida pelo sistema?

O errado seria o mundo do crime, do tráfico. Poderia ganhar muito dinheiro, ser temido, ser um matador, vivendo cada segundo com intensidade, a adrenalina a mil por hora, como se fosse o último momento da sua vida. Sabia que iria viver pouco ou passar o resto da sua vida preso no cruel sistema carcerário brasileiro. O certo seria levar uma vida normal mesmo limitada pela falta de oportunidades. Uma vida pacata, casar, ter filhos, trabalhar muito,  ganhar pouco e se aposentar com um salário  miserável.

Continuar acreditando que vale a pena ser honesto diante de tantos casos de corrupção que assola seu país, mesmo vivendo no mundo dos esquecidos. Continuar tendo esperança que um dia tudo pode melhorar, que o voto é a única saída para mudar as coisas.

Porque Lalim escolheu esse lado CERTO? O amor de Rosinha é sua grande inspiração. A força do coração lhe deu uma grande ilusão e mudou sua vida. Ele vai descendo o Morro do Macaco cantando:

"Eu estou descontraído.....não que eu tivesse bebido

Nem que eu tivesse fumado, pra falar.... da vida alheia

Mas digo, sinceramente... na vida a coisa mais feia

é gente que vive chorando de barriga cheia"...

 

 

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