Sabemos que a abolição dos escravos foi assinada no dia 13 de maio de 1888, pela Princesa Isabel. Evidente que solucionou a questão jurídica, mas não a questão ética e filosófica do reconhecimento. A corrente de ferro foi rompida, mas a corrente intersubjetiva, aquela que impede que um ser humano reconheça outro, como igual em dignidade e história, permanece como desafio.
É preciso reconhecer no outro um “eu” para que o ciclo da coisificação seja, enfim, interrompido. Divido com vocês, uma parte de uma pesquisa que fiz, sobre o poema excepcional, de Castro Alves, o Navio Negreiro. Ele constrói uma tessitura e denúncia através da antítese temporal “Ontem/Hoje”. É um poema integrante de “Os Escravos”, onde representa uma forma sobre o corpo como território de disputa política, onde a manipulação do “eu” se configura como violência primária, a des-historização do sujeito.
Lendo o poema, não há como permanecer indiferente, considerando-se com senso humanitário. Ele é impactante e merece ser lido por todos. Ouvimos o chicote, sentimos o cheiro, ouvimos o baque de um corpo ao mar. O africano antes de ser “escravo”, era um caçador de leões na Serra Leoa. Tinha nome, tinha sono em paz e amplidão, diferente do porão do barco. O canto IV, Castro Alves lhe joga dentro do porão, diz assim, “Ontem a Serra Leoa, a guerra, a caça ao leão, o sono dormido à toa, sob as tendas d’amplidão! Hoje...o porão negro, fundo, infecto, apertado, imundo. Tendo a peste por jaguar..., e o sono sempre cortado, pelo arranco de um finado, e o baque de um corpo ao mar...”.
Primeiro tiram a liberdade, segundo, apagam a história. Ontem ele era caçador guerreiro. Era sujeito da própria vida. Hoje ele é caçado pela peste, dorme com medo, e sua morte vira só um “baque “no mar. Sem nome, sem ritual, sem luto. E Castro Alves grita para Deus e para o leitor com o seu poema,” E ri-se a orquestra irônica, estridente...E da ronda fantástica a serpente. Faz doudas espirais ...Se o velho arqueja, se no chão resvala, ouvem -se gritos...o chicote estala. E voam mais e mais...”.
Os escravizados eram obrigados a dançar no convés para não morrerem da doença por falta de movimento. Imaginem: música tocando, chicote estalando, gente morrendo, e o Capitão mandando dançar mais. Castro Alves em seu poema, quebra o silêncio, “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se loucura... se é verdade tanto horror perante os céus?!O mais difícil é pensar que todo esse fato histórico não é filme, não é livro, não é só poema, é a pura realidade. É somente uma verdade!