O que torna os sonhos instrumentos da coragem e da esperança?

OPINIÃO - Leonardo Delatorre Leite

Data 11/06/2022
Horário 05:00

A associação da esperança com a busca dos sonhos, compreendidos enquanto metas de realização pessoal, representa uma prática comum nas mensagens dirigidas com o intuito de fomentar posturas de perseverança, coragem e superação. Por certo, a vinculação supracitada apresenta uma veracidade, sobretudo, por reiterar que a esperança só existe quando há um objetivo a ser almejado, ou melhor, a resignação adquire um substrato real apenas na presença de um valor responsável por atribuir um significado genuíno às lutas diárias. Apesar dos aspectos acima destacados, não é correto afirmar, de forma inequívoca, que todos os sonhos, em última instância, tipificam a esperança e fornecem bases para a fortaleza diante das adversidades.
Numa primeira análise, é premente frisar o real sentido da esperança. Para o filósofo Tomás de Aquino, a esperança representa uma virtude, cujo conteúdo reside na postura de firmeza moral em prol do Sumo Bem, a finalidade legítima e derradeira das ações humanas, a saber: a felicidade. Desse modo, o desejo constante pelo bem é, em última instância, a própria virtude supramencionada. Nesse sentido, suportar as adversidades em vista do que é bom e moralmente desejável configura um ato virtuoso. Destarte, a fortaleza, isto é, a capacidade de persistência no caminho da retidão moral, e a esperança guardam uma conexão íntima e, de certo modo, inexorável. Em vista disso, os sonhos só auxiliam na felicidade quando atrelados a uma dimensão axiológica orientada ao bem maior e à vida virtuosa. 
Diante disso, alguém que se deixa levar pela avareza, pelo vício da ganância e por uma falsa compreensão de que a felicidade reside na posse de bens materiais e na vanglória, não será capaz de vivenciar a esperança, pois ela é a expressão do desejo pelo que é nobre em termos morais, isto é, pelos valores tidos como imprescindíveis para a alegria genuína, quais sejam: o amor, a humildade, a magnanimidade, a coragem, a prudência e a justiça. 
Sob essa perspectiva, é importante reiterar a compreensão aristotélica de felicidade, definida como a atividade da alma em vista da virtude perfeita. Portanto, os sonhos, tomados de forma apriorística, não podem ser considerados um farol da esperança, pois só adquirem essa qualificação quando orientados ao Sumo Bem e às virtudes. Nas palavras de Tomás de Aquino. As coisas que amamos nos dizem quem somos. Dessa forma, o desejo do coração deve estar orientado a um propósito digno de apreciação valorativa para que os sonhos e propósitos individuais possam reverberar a grandeza de caráter. 
Diante dos fatos supracitados, os objetivos e propósitos particulares são importantes e realmente devem ser analisados como chaves imprescindíveis na experiência da felicidade e na preservação da esperança, mas é preciso cautela para que os fins buscados não exprimam bens inferiores, isto é, não significativos moralmente, pois somente pelo bem e pela vida virtuosa o homem pode desfrutar de uma alegria satisfatória, ainda que as adversidades sejam potencialmente hostis.
 

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