É preciso dar voz a quem protege os que não falam

EDITORIAL - DA REDAÇÃO

Data 02/04/2026
Horário 05:25

A causa animal, por muito tempo relegada a iniciativas isoladas e ao esforço quase invisível de voluntários, começa a ganhar contornos mais estruturados em Presidente Prudente. A reunião realizada pela Prefeitura com protetoras independentes sinaliza um avanço importante: o reconhecimento, por parte do poder público, de que essas mulheres — em sua maioria — são peças fundamentais na engrenagem de cuidado e proteção aos animais.

Não se trata apenas de ouvir demandas, mas de legitimar uma rede que já existe e atua, muitas vezes, no limite de suas possibilidades. Quando uma protetora relata cuidar de cerca de 200 gatos, como é o caso apresentado no encontro, evidencia-se uma realidade que ultrapassa o voluntariado e adentra o campo da necessidade pública. É, portanto, responsabilidade do município atuar de forma mais consistente.

Entre as propostas discutidas, a criação de um banco de ração no Abrigo Municipal desponta como uma medida simples, porém de grande impacto. Ao canalizar doações e redistribuí-las a quem está na linha de frente, a administração reconhece que o apoio indireto pode ser tão eficaz quanto ações diretas. Da mesma forma, a ampliação das parcerias para castração aponta para uma política preventiva, essencial para conter o crescimento desordenado da população animal.

Os números já apresentados pela atual gestão — mais de mil castrações realizadas — são relevantes, mas ainda insuficientes diante da demanda crescente. O desafio não está apenas em manter o ritmo, mas em expandi-lo de forma planejada e contínua.

Outro ponto que merece destaque é a organização das próprias protetoras. A iniciativa de cadastramento representa um passo importante para dar visibilidade e voz institucional a essas agentes. Um grupo organizado dialoga melhor, reivindica com mais força e também se torna mais apto a estabelecer parcerias com a iniciativa privada.

No campo legislativo, a recente sanção da lei que incentiva a denúncia de maus-tratos e abandono reforça o papel da sociedade no enfrentamento do problema. Ao prever recompensas para quem colaborar com a identificação de infratores, o município aposta em um modelo que alia conscientização e fiscalização. Resta, agora, garantir que a regulamentação seja eficaz e que a lei não se torne apenas uma boa intenção no papel.

É preciso reconhecer que políticas públicas voltadas à causa animal não são apenas uma questão de sensibilidade, mas de saúde pública, equilíbrio urbano e responsabilidade coletiva. Animais abandonados impactam diretamente a qualidade de vida nas cidades, seja por questões sanitárias, seja pelo sofrimento que expõem diariamente.

O caminho adotado pela administração municipal, ao abrir diálogo e propor ações concretas, é promissor. No entanto, como em tantas outras áreas, o sucesso dependerá da continuidade, da escuta ativa e da capacidade de transformar propostas em políticas permanentes. A causa animal não pode mais depender exclusivamente da boa vontade de poucos. É hora de consolidá-la como prioridade compartilhada entre poder público e sociedade.

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