“Tempos perdidos” e a arte de suportar a solidão

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 19/06/2026
Horário 07:00

Acordei hoje como quem chega devagar à superfície, ainda envolto no sono, quando ouço o chamado firme e carinhoso da Mulher Maravilha — que insiste em me chamar de “Gordo”, desde os tempos de solteiro, sem que eu nunca tenha conseguido descobrir o motivo exato.
 -- Gordo, não demore: o Cláudio quer falar com você — avisou ela. Cláudio é um amigo engenheiro lá da Bahia, daqueles que o tempo e a distância não afastam. Ainda com a voz arrastada pela sonolência, liguei e ele me passou o recado: uma reunião marcada para as 14h30. Anotei mentalmente e tudo ficou combinado. Logo em seguida, ela saiu rumo à Academia do Tênis Clube e eu fui até o Supermercado Nagai, com a missão de trazer os pães para o nosso precioso café da manhã. 
Sentado à mesa, sozinho, com a calma da manhã, bateu uma vontade súbita de ouvir algo que sempre me toca fundo: “Tempos Perdidos”, de Renato Russo. Gosto especialmente da interpretação que o Seu Jorge e o Alexandre Pires fazem dessa canção. Procurei o vídeo no YouTube, baixei e apertei o play. Foram momentos verdadeiramente mágicos: o pão quente com manteiga derretendo, o queijo frescal da marca Terra Doce do querido amigo José Roberto e de seu filho, que chamo carinhosamente de Sueco. Queijo de sabor suave, a geleia de morango sem açúcar da marca Amore, tudo acompanhado daquela letra que é mais poesia do que música — uma obra que moldou gerações e continua falando direto ao coração de quem gosta de refletir sobre a vida. 
Enquanto as notas iam e vinham, lembrei-me da frase do meu filósofo preferido, Nietzsche: “O valor de uma pessoa é medido pela quantidade de solidão que ela consegue suportar”. Uma ideia dura à primeira vista, mas profundamente verdadeira. A música continuava tocando e suas palavras pareciam feitas para o agora, atemporais:
"Todos os dias que acordo / não tenho mais o tempo que passou / O nosso suor sagrado / é bem mais belo que esse sangue amargo…” Esses versos poéticos me levaram à conversa longa que tive com o meu querido amigo José Roberto — a quem chamo carinhosamente de “Colete”. Ele foi meu funcionário mais leal nos tempos em que fui distribuidor da Schincariol, homem feito na dureza da lida da vida e da rotina dura da realidade. Trabalhador e um homem onde o caráter é o seu castelo. Até hoje ele me chama de seu Isaac.  Infelizmente, o destino foi severo, a morte levou sua mulher, seu grande amor. Se chamava Sandra a bela "Espanhola". E foi aí que a frase de Nietzsche voltou a bater forte no meu coração. Hoje, é exatamente isso que o "Colete" está vivendo: suportando sua solidão, sem esmorecer, sem perder a dignidade. Preocupado apenas em criar seu filho e dar a ele todo amor possível e amenizar o máximo possível a ausência da mãe. Colete é desapegado de coisas materiais. Ele me disse, com a voz pausada e cheia de saudade:
— Poeta, todos os dias, quando você acordar, diga para a sua Mulher Maravilha que a ama. Não deixe nada para depois. Digo isso porque eu aprendi pela dor da perda, queria ter dito mais, demonstrado mais, vivido mais ao lado da minha mulher. Mas a luta pela vida, o trabalho me privou dessa magia.  A morte levou ela e não pude fazer nada. Ela era muito religiosa e acreditava na sua cura. Senti a sua dor e a sua solidão, e só pude ficar em silêncio e respeitar o peso da solidão que ele carrega. Recorro ao filósofo Platão no seu livro o Banquete onde para o personagem Pausânias diz que existem dois tipos de amor:  O Eros Vulgar: Voltado apenas para o corpo, para o prazer físico imediato. É irracional e passageiro.
O Eros Celestial: Voltado para a inteligência, para a alma e para o aprimoramento moral. Este é o amor que busca a sabedoria e dura para sempre. Tenho certeza que meu amigo Colete viveu o "Eros celestial".  No final, a música e a reflexão se encontram: não há tempo realmente perdido quando vivemos com a verdade. Feliz, diz a sabedoria, é o homem que sabe sofrer com coragem e que aprende a conviver consigo mesmo — mesmo quando a presença de quem amamos já não está ao nosso lado. Suportar a solidão não é se entregar ao vazio; é provar, acima de tudo, o tamanho do nosso próprio valor. E o querido amigo Colete teve o privilégio de ter sentido que o amor é mais profundo que uma transa sensual. Querido amigo, a Espanhola estará sempre ao seu lado espiritualmente. "A morte pode ter levado ela, mas jamais levará o amor de vocês". 
"Veja o sol dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos
Castanhos
Então me abraça forte
Me diz mais uma vez que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo"....

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