16 e 51

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 03/03/2026
Horário 06:00

Maria, ontem foi 2 de março, e você completou 16 anos. Amanhã, 4 de março, eu chegarei aos 51. Por dois dias, teremos idades que parecem e até são mesmo mundos distantes.
Daí, então, eu resolvi fazer um inventário dessas diferenças, como quem olha de longe para duas pessoas que se amam e se “estranham” (no bom sentido) na mesma medida:

Estilo musical

16: Seu app de música vai do sertanejo ao rap, trap, api, sei lá o quê. Treme com batidas que eu mal consigo distinguir. E repete, repete, repete. Você sabe todas as letras, os artistas, os feats. É um universo inteiro que me escapa.

51: Eu ainda vivo com as melodias do Legião Urbana, do Cazuza e Caetano no carro e canto como se as letras tivessem sido escritas ontem. Você revira os olhos, mas às vezes eu te pego cantarolando baixinho “Exagerado”.

Férias

16: Agitação total. Quer estar com os amigos, ir a shows, praia, shopping, tudo ao mesmo tempo. Ficar em casa é perda de tempo.

51: Calma, com a família. Um bom livro na rede, praia bem de leve, um almoço demorado, uma série sem pressa. O paraíso é não ter compromisso.

Política

16: Você votar pela primeira vez. Leve isso com a seriedade necessária. Estude, debata, tenha esperança de que as coisas podem mudar.

51: Já votei tantas vezes... Difícil escolher depois de tantas decepções, mas nunca vou desistir de cumprir minha obrigação como cidadão e tentar fazer este país ser cada vez melhor para você e seus filhos.

Meio ambiente

16: Entre a indignação e o "sei lá". Às vezes te pego engajada, outras vezes distraída. É difícil carregar o peso do mundo quando se está descobrindo a vida. Tudo bem, por enquanto.

51: Olho para o calor escaldante, para as notícias, e penso: o mundo vai acabar em fogo do jeito que está indo. Mas finjo otimismo quando você está por perto. Mesmo em Presidente Prudente.

Tecnologia

16: Você resolve tudo no celular. Sua vida cabe numa tela de 6 polegadas.

51: Eu sou das redes, claro. Um tiozão digital. Dou aula disso, mas ainda prefiro também ler jornal de papel e anotar coisas num caderninho. Você me ensina a usar os aplicativos e eu finjo que aprendo mais do que realmente aprendo.

Comida

16: Você, tranquilamente, poderia viver de macarrão, pizza e churrasco.

51: Eu já penso mais no colesterol, na glicemia, no refluxo. Como com vontade, mas com cautela.

Amor

16: Você descobre agora seus primeiros amores. Cada sentimento é vulcão, é furacão, é tudo ou nada. Mas gosto de como você tem aprendido a se cuidar. Estarei sempre por perto para te orientar, acolher e proteger.

51: Já aprendi que amor não é só o que aquece, mas o que machuca. E muito. Mas o que fica depois que a tempestade passa é a certeza de que amar sempre será a resposta para o desejo de termos nossos dias mais felizes. E eu sou muito, muito feliz hoje.

Futuro

16: Você tem o mundo inteiro pela frente. Mil possibilidades. Vai morar fora do país. Depois vai ser médica, artista, engenheira, talvez tudo isso junto.

51: Hoje olho para você e penso que meu futuro passa, de certa forma, por ver e querer que você e seu irmão, Pedro, sejam muito realizados.

Mas sabe de uma coisa, Maria?

Quando trouxeram o bolo com velas 1 e 6 lá na festa e amanhã quando eu apagar minhas 5 e 1, nenhuma dessas diferenças vai importar. Porque quando você ri, eu dou risada junto. Quando você chora, meu coração aperta do mesmo jeito. Quando você me abraça, ainda cabe inteirinha, mesmo já sendo quase do meu tamanho.
Aos 16, você me ensina sobre um mundo novo que se transforma todos os dias.
Aos 51, eu tento te ensinar que nem tudo muda, especialmente o respeito, a educação e a honestidade.
Feliz aniversário, minha filha. Que venham seus 16, meus 51, e todos os anos que a vida nos der para continuarmos diferentes ou quase iguais, mas sempre juntos.
 

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