A ária do Chupim    

Carlito Cunha

CRÔNICA - Carlito Cunha

Data 02/06/2026
Horário 06:40

O cara era um vagal de dar dó.
E de um cinismo de dar reiva! Foi na época em que professores ganhavam bem. Pode parecer ficção, mas os professores já ganharam bem, sim, senhor, até os anos 1950, talvez. Não podemos esclarecer quando foi que a coisa mudou. Tanto é verdade o que afirmamos que, naquela época, quem se casava com professora, frequentemente era chamado de chupim. E, pra quem não sabe, chupim é um pássaro preto que joga os ovos do tico-tico pra fora do ninho e põe ali os seus próprios. Quando nascem os filhotes o tico-tico pensa que são seus e cuida e trata deles como tico-tiquinhos. É comum ver-se, depois, os pequenos tico-ticos, menores do que os seus “filhos” chupins, levantando a cabeça para pôr nos bicos dos enormes, chorões e vagabundos, a comida que buscou com tanto sacrifício. E os sem-vergonhas choram como criança mesmo. É de se ver. Sem preconceitos quando os chamamos de vagabundos, porque quem conhece sabe que os bandidinhos vivem à custa dos pais adotivos muito além da idade em que já teriam capacidade de procurar seu próprio alimento.
Mas tudo isso veio por causa do “chupim” que se casou com uma professorinha, no interior. Fazia nada, trabalhava nada! Um dia ela pediu o desquite. Naquele tempo não se divorciava, se desquitava. E foi um custo para a pobre professorinha resolver isso porque, como disse, naquela época, mulher desquitada era comparada à mulher à toa, mulher fácil e outros adjetivos pejorativos. Mas, vencendo os adjetivos que pudessem advir, ela resolveu, porque resolveu e pronto, pediu o desquite. Motivo? “Chupinagem”.
- Estou cansada, Meritíssimo, de trabalhar, trabalhar e cuidar do filho, cuidar da casa, sozinha... sustentando esse marmanjo que não quer saber de nada...
Assim foi o andamento da cantata, que não foi bem uma cantata e sim uma ária, porque o “sanguessuga” ficou quieto a um canto sem abrir o bico (sim, porque era um chupim). Ele que viveu sempre atrelado à mulher, agora não dava trela. Cabisbaixo, encolhido, até que o juiz falou com ele.
- Mas Excelência, não vejo razão para tanto alarde – disse, quando arguido – Quando falei com os pais dela, pedi-a em matrimônio. Não foi?
- Hum, hum - concordou o juiz, querendo saber onde é que ele queria chegar.
Ele tinha usado da vantagem de ser marido de professora e, de vez em quando, dava uma olhadela em sua biblioteca, aumentando seus conhecimentos.
- Pois então. Na minha ignorância “patrimônio” quer dizer bens adquiridos e como patri é um elemento de composição que vem do grego e quer dizer pai, patriarca... entendi que patrimônio são bens adquiridos pelo varão, chefe da família. Logo, quando falei com os pais dela, pedindo-a em ma-tri-mônio, deixei subentendido que ela, a varoa, supriria a casa, pois matri é, como V. Excelência sabe, um elemento de composição que vem do latim e que quer dizer mãe.
Fez uma pausa para deleitar-se com as expressões das pessoas que contornavam a mesa diante do juiz. Sorriu indecentemente e gesticulou, como se o juiz fosse um idiota.
– Pegou, doutor? PA-trimônio... MA-trimônio... – fez uma cara de quem não conseguiu vencer um apelo disentérico – Eu posso ser condenado por inoperância?
 

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