A força do alto

OPINIÃO - Sandro Rogério dos Santos

Data 29/11/2020
Horário 05:05

“A seguir, cenas do próximo capítulo”, informou o letreiro da TV. Embora quisesse se desligar um pouco, ficou encantada com a chamada do filme que viria após o emotivo capítulo do seu programa favorito. Ir para a cama sem assistir à novela? Nem pensar! A rotina não era afetada por aquele costume. Mas era complicado ficar mais tempo em frente à telinha. Ela estava acostumada a despertar 5h, arrumar-se, adiantar o serviço da casa, preparar a comida para o João, seu marido, que saía para o trabalho às 6h, embora só iniciasse cerca de 8h – havia uns bons quilômetros de estrada de terra para vencer a pé. Alguma vez ganhava carona de boa alma que por ali tão cedo transitava de trator ou de carroça.
Por último, a tarefa de acordar as crianças; Luiza e Pedro deviam se arrumar, tomar café e ir para a escola na companhia da boa e santa vizinha dona Maria Antônia; no que muito ajudava aquela dona de casa, pacata, cheia de trabalhos e grande líder comunitária. Não tendo oportunidade de estudar regularmente, cursou algumas séries escolares. O seu maior aprendizado, entretanto, veio da luta e da labuta. Viu-se forçada pela vida a cuidar dos irmãos mais novos após a morte de seus pais num trágico acidente doméstico.
Aos 13 anos de idade, sentiu-se compelida a não morrer nem deixar morrer. Desdobrou-se trabalhando na roça por um tempo e logo mais na casa de gente importante da redondeza. Seus três irmãos menores sobreviveram; ela fazia questão de não os deixar com outras pessoas. E o arranjo familiar deu certo; nenhum deles se desencaminhou. Todos pobres, honestos, trabalhadores, companheiros, preocupados e de família. Talvez por essa vida tão sofrida, aprendeu a compartilhar das dores dos outros e a querer diminuí-las. Talvez pela garra que a impulsionou a ser irmã-mãe-pai dos seus irmãos fez-se guerreira, dessas que não têm tempo ruim (aliás, só tem tempo ruim, a ser vencido).
Um primeiro enfrentamento que a líder Margarete assumiu foi o de ajudar as pessoas das propriedades em derredor a não viverem isoladas, pensando somente em si próprias, pois viver unidas é muito melhor que desunidas. Viver comunitariamente é muito mais frutuoso que isoladamente, sobretudo naqueles tempos em tão longínquas distâncias. A força moral daquela mulher animava o grupo. Nela, as pessoas viam um facho de luz, uma esperança sempre alimentada. E ao desligar a TV e apagar a luz, acendia-se no coração dela a verdadeira luz pela oração, pois do alto vinha a sua força! A mulher de fibra aprendeu a dar-se toda aos outros por causa d’Aquele que se fez tudo para todos. Advento é tempo de esperança.
Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!
 

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