Rondonópolis, sob a luz difusa das sete da noite, é um cenário inesperado para a introspecção. Conhecida pelo calor que costuma abraçar a cidade, ela nos recebe hoje com uma chuva mansa e persistente. O clima fresco, que lá fora é uma surpresa meteorológica, aqui dentro do apartamento se transforma em um convite ao recolhimento. Acabo de chegar da academia no próprio prédio; o corpo, desperto pelo vigor físico, agora busca a horizontalidade do sofá, mas a mente, essa viajante incansável, insiste em percorrer caminhos que transcendem o asfalto e o concreto.
Vim em busca de renovação, um respiro necessário fora da nossa amada aldeia. Às vezes, o cenário habitual, saturado de memórias, torna-se um peso sobre os ombros. A dor pelas perdas recentes — a ausência física dos irmãos amados e o silêncio deixado pela cachorra Amora — pedia um novo horizonte, uma pausa para o luto se misturar com a vida que pulsa em outros lugares.
Em busca de paz para o espírito, deixo a lírica música, “Clair de Lune”, de Claude Debussy, preencha o ambiente. A música não é apenas um fundo sonoro; ela é a própria textura do momento. Suas notas caem como gotas de luz líquida na sala, espelhando o ritmo da chuva na janela. Debussy traduz o luar em som, e hoje, esse luar invisível se mistura à humidade da noite mato-grossense, amaciando as arestas da saudade.
É sob essa atmosfera que as palavras da grande escritora belga, Marguerite Yourcenar, com seu lírico poema me encontram. O poema surge como um oráculo.
"Nunca saberás que a tua alma viaja
docemente refugiada no fundo do meu coração,
e que nada - nem o tempo, nem a idade,
nem outros amores - impedirá que tenhas existido.
Que toda a beleza do mundo carrega o teu rosto,
vive da tua doçura, brilha com a tua luz..."
Leio, e sinto uma espécie de bálsamo sobre as feridas abertas. Yourcenar, com sua sabedoria sobre a perenidade do amor, me lembra que a morte não é o fim da relação, mas uma transformação dela. Meus irmãos Teco e Roy e minha doce cachorra Amora não estão mais fisicamente "aqui", mas passaram a habitar "em mim" que será sempre uma saudade indestrutível.
A autora fala sobre uma "lâmpada de ouro" que ilumina o caminho. Entendo, então, que a tristeza não precisa ser uma sombra perpétua, mas sim o pavio que mantém essa lâmpada acesa. A memória é essa luz que me permite ver o presente com mais clareza. E o presente é vibrante.
Olhar ao redor e ver a "Mulher Maravilha", minha companheira de tantas jornadas, já instalada; celebrar o aniversário da minha amada filha Luiza e a proximidade da Páscoa; rever a minha doce neta Isabel na companhia da amada filha Flávia, e dos meus genros de ouro, Milan e André, isso é a "perenidade do amor" materializada na carne e no sorriso. A beleza do mundo — e a beleza deste reencontro familiar em Rondonópolis — realmente carrega o rosto de quem amamos, tanto dos que estão à mesa quanto dos que agora são lembrança pura.
Nesta Páscoa de chuva e a música “Clair de Lune” de Debussy, o renascimento que busco não é o esquecimento, mas a integração. É compreender que a ausência pode se tornar uma presença que guia, um eco suave no meu próprio canto. E que, não importa para onde eu viaje ou quão longe eu vá da minha aldeia, a alma amada sempre viajará comigo, como um doce coração adotado, fazendo de cada lar uma extensão da eternidade.