Estamos sendo invadidos, ultimamente, por fortes escândalos relacionados à corrupção, mentiras e omissões, entre os políticos de todo o nosso país. Deixando claro que político é diferente do conceito de política. Há fortes tentativas em direção ao apagamento da tão sagrada, suave e grande virtude que é a verdade. Não podemos banalizar a mentira, pensar que é tudo normal e dar um jeitinho. Nós, psicanalistas, temos um compromisso com a verdade.
A realidade do problema se torna aparente, quando perguntamos se é possível analisar um mentiroso. A discriminação entre a verdade e mentira desafia continuadamente o psicanalista. Para que haja mentira, é preciso que haja um pensador. A mentira ela é articulada, intencionada e muito bem construída. A verdade ou pensamento verdadeiro não requer ou demanda um pensador (Bion (1897-1979)). O pensamento não é, logicamente, necessário. Ninguém precisa pensar o pensamento verdadeiro: ele aguarda o advento do pensador, que adquire importância através do pensamento verdadeiro.
A mentira e o pensador são inseparáveis. A mentira é o vínculo entre duas mentes que leva à destruição mútua. A mentira é um pensamento para o qual uma formulação e um pensador são essenciais. Algumas formas de mentir parecem estar intimamente relacionadas a experimentar desejo.
Em Freud (1856-1939), há um texto muito importante chamado “Os dois princípios do funcionamento mental” que são : O princípio da realidade X o princípio do prazer. O mentiroso que ostenta somente pela direção do princípio do prazer, evidentemente, que inclinará pela realização somente dos seus desejos e a realidade estará fora de cogitação.
Passando por cima da verdade e realidade. Mentirá com certeza. Um sujeito que não tolera frustrações! A mentira tem perna curta, diz o velho ditado popular. Ela é descoberta mais cedo ou mais tarde. A perna curta é uma metáfora para a falta de sustentação e a dificuldade de manter uma mentira por muito tempo. Provavelmente surgiu da observação de que as mentiras tendem a se desdobrar e se complicar com o tempo, tornando-se cada vez mais difíceis de mantê-la.
A pintura “A verdade saindo do poço” (1896), Jean-léon Gérôme, escultor e pintor francês, está ligada a uma parábola do sec. XIX, diz assim: Segundo essa parábola, a verdade e a mentira se encontram um dia. A mentira diz à verdade: “Hoje é um dia maravilhoso!” A verdade olha para os céus e suspira, pois o dia era realmente lindo. Elas passaram muito tempo juntas, chegando finalmente ao lado de um poço. A mentira diz à verdade: “A água está muito boa, vamos tomar um banho juntas”. A verdade, mais uma vez desconfiada, testa a água e descobre que, realmente está muito gostosa. Elas se despiram e começaram a tomar banho. De repente, a mentira sai da água, veste as roupas da verdade e foge. A verdade, furiosa, sai do poço e corre para encontrar a mentira e pegar as suas roupas de volta. O mundo, vendo a verdade nua, desvia o olhar, com desprezo e raiva. A pobre verdade volta ao poço e desaparece para sempre, escondendo nele sua vergonha. Desde então, a mentira viaja ao redor do mundo, vestida como a verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade, porque, em todo caso, o mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a verdade nua”.