A peste

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 06/03/2022
Horário 05:20

A Lua cheia iluminava os bancos da praça e escondia tímidas estrelas. A cidade era um silêncio ensurdecedor, quebrado só de quando em muito por grilos ou por gatos que costumavam dormir na beira do chafariz. Dizem os moradores daquela pacata cidade que neste tipo de noite eles costumam ter pesadelos.

De uma estreita esquina, vindo de bairros mais distantes, caminhava rumo à praça um morador de rua. O andarilho estava cansado. As moscas, que teimam em não dormir à noite, irritavam suas orelhas, seu nariz e demais locais considerados impróprios por muitos outros. Ele tinha o corpo remoído e pelo asfalto marchava ao som desritmado de unhas mal aparadas que arranhavam o chão.

Enfim, o morador de rua chegou à praça. Procurou um canto que fosse mais aconchegante, se é que podemos chamar assim aquele lugar. Era ao fundo de um banco, por detrás de alguns jornais que o aqueciam e tapava a luz. Tão logo se acomodou, sem esses tipos de cerimônia como bocejar e espreguiçar, adormeceu profundamente. E sonhou que estava em um duelo com o medo. Ele como um espadachim a circundar o medo. Se mata, nasce de novo. Se poupa o medo, continua a repousar ali, sonhando com um prato de uvas verdes. Cada gomo, uma faceta. A que encena, a que ri, a que encanta...

Você deve pensar que essa cena é surreal ou alguma situação que vivi lá na cidade grande, mas as coisas andam tão difíceis que a peste ronda todo o país. Não é o sofrimento profundo de prisioneiros de guerra ou exilados (afinal, qual é a razão de viver com uma memória que não serve para nada?). Nem mesmo a desesperança e a solidão daqueles familiares mais próximos das quase 650 mil vidas perdidas na pandemia. Mas de histórias arrebatadoras sobre o horror, a sobrevivência e a resiliência do ser humano diante da falta do que comer.

Sim, a peste, a guerra e a fome sempre andaram juntas. Mas a fome é a grande história do nosso tempo. Em nenhuma guerra ou ato genocida existem tantas pessoas morrendo a cada minuto, a cada hora e dia, do que aquelas que morrem por fome e pobreza em nosso planeta. Eu sei, o mundo mudou. Ataques cibernéticos maciços. Exércitos marchando de leste a oeste na insistente luta para manter o controle do mundo, agora com tecnologias sofisticadíssimas (sistema ratnik de comunicação integrada, sistema óptico de localização, veículos aéreos não tripulados de combate etc). Mas, a fome é intolerável e está em toda parte. Fere de morte o princípio da dignidade da pessoa humana. Planeta fome!

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