A profissão do futuro

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 24/05/2022
Horário 06:09

Se me perguntassem hoje quais seriam as cinco principais profissões de futuro eu não titubearia em dizer que uma delas, pelo menos, está ligada à comunicação. 
Seja jornalismo, publicidade, relações públicas ou marketing, em um mundo extremamente pautado pela conexão digital entre pessoas, e entre pessoas e empresas, um desses profissionais sempre será indispensável. 
A sociedade sempre teve na comunicação um fator importante para sua própria sobrevivência. Mas a importância vai além com o mundo digital. Nunca se precisou tanto de intermediários para que as informações façam, pelo menos, sentido. Não falo da conversa entre um perfil e outro, entre um internauta e outro, mas principalmente entre as grandes organizações e os públicos de interesse. Hoje, toda empresa é uma empresa de mídia, tem condição de se expressar na rede. Mas aquelas que possuírem profissionais da área estarão bem mais à frente neste relacionamento tão importante com os consumidores.
Bem, dei este exemplo para cravar outra situação: a profissão do futuro é aquela que a pessoa quer que seja!
Jovens e adultos que estão por aí às voltas para a escolha das profissões dos filhos, considerem as próximas linhas e em primeiro lugar é preciso primeiro observar a vocação. Sem ela, nada feito. Assim como estou cansado de ver estudantes frustrados com suas carreiras porque alguém lhes “empurrou goela abaixo” uma atividade da moda ou de elite, também vejo que muitas vezes só querer exercer um trabalho não basta. 
É preciso respeitar o que os filhos querem de fato e isso já é talvez o maior presente que os pais podem dar às crianças e adolescentes nesta fase tão difícil.

Isso me lembra uma história:

“Estava eu em uma fila de mercadinho, em um domingo. Havia acabado de comprar quatro cervejas e iria levar para o almoço. À minha frente, um senhor e o homem do caixa. Eles conversavam e em determinado momento, o senhor disse:

- Meu filho já vai prestar vestibular. Ele quer fazer Jornalismo. Gosta disso e tem facilidade. 

O moço do caixa ficou transtornado e atacou com a seguinte frase:

- Tá louco de deixar isso acontecer? Onde já se viu, permitir que o menino seja uma pessoa que só conta mentira. Fala para ele fazer qualquer outra coisa que dê dinheiro. Isso aí não dá dinheiro, nem futuro.

A resposta veio serena:

- Mas eu preciso levar em conta que ele quer isso e tem muito talento para escrever e falar. Será um bom comunicador.

Ele falou e saiu. E eu, jornalista e professor do curso de Jornalismo, que estava ali atrás com minha cervejinha na mão, dizia a mim mesmo: “Não entra nessa conversa, deixa quieto. Hoje é domingo... Vai descansar. Não fala nada...”.
Olhei para frente e o rapaz do caixa me encarou e disse: “Não é verdade? O que você acha?”

Ixiiii. Caramba, agora chamou para a briga. Esses ranços aí contra profissões e preconceitos diversos são muito mais problemas das pessoas que os dizem do que de todos nós que recebemos. Mas, perguntar o que eu achava...

- Olha, amigo, eu não só acho, como tenho algumas certezas. Aliás, devo dizer que você está bem equivocado. Primeiro, em se intrometer na vida dos outros. O homem que estava aqui ficou bem constrangido com sua forma de abordagem. E segundo, para o senhor falar com tanta propriedade assim sobre a vida e sobre as profissões precisaria ter muito mais fundamento.

- Como assim?, disse ele.

- Eu sou jornalista, sou professor do curso de Jornalismo e nunca enxerguei um cenário tão favorável para a profissão como agora porque especialmente as empresas, como a sua, precisam se comunicar de forma profissional e decente com seus públicos. Ou ficarão falando para si mesmas e perdendo cada dia mais negócios. Não ter uma comunicação profissional hoje significa entregar à sorte a exposição da imagem e da identidade da empresa que cuidou com tanto carinho. Em outras palavras, há muito emprego e dinheiro disponível para aqueles que souberem ler o cenário digital. 

- Não tinha pensado assim, disse.

- Claro que não pensou. Além disso, tenho 27 anos de carreira e nunca precisei buscar um centavo fora da minha profissão para cuidar da minha família. 

Ele retrucou:

- Ah, mas mesmo assim precisa ralar muito, né?

Eu disse a ele:

- Mas olha, até para ser dono de simples mercearia como senhor é preciso ralar muito ou morre na praia.

Bem, conversa que acaba, moral que fica: a vida profissional é muito mais do que modismos ou preconceitos. Se pais e mães se concentrassem mais no que os filhos querem e menos no que a sociedade diz para que façam, teríamos um mundo com profissionais muito mais felizes. Um mundo com profissionais de futuro!

Veja também