A sogra e a nora não se entendiam de jeito nenhum. Brigavam mais do que gato e cachorro, se é que bichanos e cães brigam tanto assim. Elas viviam às turras. Teimosas, brigavam por qualquer besteirinha. Desavenças e conflitos que pareciam não ter fim.
Na verdade, verdade verdadeira, a nora não "engolia" a sogra e - pasmem! - pensou em matá-la. Sim, isso mesmo que o Cebolão e o Satanyahu causam no Irã: matar.
A nora era amiga de um médico, que também entendia um bocado de química. Ela o procurou e o colocou a par da situação conflitante que vivia com a sogra. E foi direta: "Quero que o senhor prepare um medicamento letal, que mate a minha sogra porque eu não aguento mais essa velha", explicou.
Surpreso, o médico disse que não poderia fazer isso e aconselhou: "Procurem se entender. Conversem bastante, dialogar é importante. Vocês podem se entender e viver em paz", sugeriu o médico, que também orientou: "Evite as provocações".
A nora não se deu por satisfeita, pois queria se livrar da sogra a todo custo. Por isso, insistiu com o médico: "Prepare a poção. Quero dar o líquido diariamente para essa "véia chata" até ela morrer", contou a jovem.
Com tanta insistência, o doutor aceitou o pedido e preparou o medicamento a toque de caixa. Logo depois, entregou à nora. Ela começou a dar o líquido à sogra. Todo dia a sogra tomava uma colher do medicamento, mas para espanto da nora, a senhora continuava com uma saúde de ferro. Encurtando conversa: a sogra continuava vivinha da Silva.
Frustrada, a nora foi tirar satisfações com o médico: "Que remédio o senhor preparou? A minha sogra está ótima e até passou a conversar mais comigo. Nosso relacionamento melhorou", contou a moça.
Foi aí que o médico se explicou: "Eu preparei um remédio falso, um placebo, porque sabia que mais cedo ou mais tarde você e sua sogra voltariam a se entender". Aliviado, o doutor, que era humanista, acrescentou que estava feliz por não ter cometido um crime e por restabelecer a paz entre a sogra e a nora, que viviam às turras e, hoje, preferem torrões e torresmos.
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(Millôr Fernandes, adaptado)