Adolescência x medicalização

A intolerância à frustração aumenta a cada dia. Acostumados à sequência operativa ou mecânica, preferimos seguir. O novo realmente assusta e poderá causar mal estar. Penso que, ao observar um formigueiro, irão encontrar esse formato. São as formigas operárias. Elas realizam um ato repetitivo. Bem, as formigas sim, não possuem um aparelho para pensar os pensamentos. Nós seres humanos podemos pensar. São as instâncias psíquicas: consciência, pré-consciência e o inconsciente (Id, ego e superego), que nos constituem. 
A adolescência é uma fase onde mudanças ocorrem o tempo todo. Mudanças corporais, biológicas, hormonais, psicológicas e comportamentais. Avalanches transformações e parcas compreensões, bem como acolhimento é o que observamos nessa delicada e tão constituinte fase. Os adolescentes expressam de muitas maneiras angústias, dores emocionais, depressões e nível de ansiedade muito grande. Isolamento, fuga da realidade, defesas autísticas, enfim, desequilíbrio grande. Eles queixam muito de sentimentos como: “não me encaixo”, “sinto deslocado”, “sou feio”, “pareço um ET”, “ninguém se importa comigo”, etc. Sofrem bullying o tempo todo. Alguns comentam sensações de extrema solidão e incompreensão por parte dos pais.
Muitos pais, realmente estão dissociados desse momento crucial da vida de seus filhos adolescentes. Hipnotizados em meios aos seus sonhos de realização dos seus desejos infantis, alguns obrigam à realização dos mesmos. Deixam de refletir sobre o momento em que estão passando nessa faixa etária marcada por fortes turbulências. Aspectos como déficit de atenção, hiperatividade, falta de concentração, automutilações corporais (cutting), etc. podem surgir como alívio para suportar a dor psíquica. 
As pessoas que cercam os jovens exercem um papel importante durante esse período. Tudo que elas fazem pode favorecer o desenvolvimento, confiança em si e a coragem de superar suas impotências, ou ao contrário, o desânimo e a depressão. Hoje muitos jovens a partir de 11 anos conhecem estados de depressão gratuitos. Observamos que a medicalização está entrando muito cedo e em grandes quantidades nessa faixa etária. É lamentável o desconhecimento por outras maneiras pela busca de fortalecimento egoico nesses jovens em franco desenvolvimento.
Todos estão em busca de efeitos imediatos, mas o estrago poderá ser permanente. Submeter os jovens, ao autoconhecimento e às reflexões sobre o contexto do adolescer e estimular o pensamento sobre suas experiências, sem dúvida, é ajudá-los a enfrentar não só o momento do conflito, mas todo o conflito de uma vida, no presente e futuro. O acolhimento, silêncio amoroso, certo companheirismo com vista grossa, diálogo afetivo, competição e lições de moral deixadas de lado, e conhecimento sobre adolescência poderão ajudar muito. 
Evitando a busca pela medicalização que poderá implicar na postergação em direção ao desenvolvimento, não somente do conflito atual e sim de toda uma vida. Deixando claro que há casos que tanto a medicalização como a psicoterapia são necessárias.
 

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