Era uma galinha igual a todas as galinhas que punha ovos iguais a todos os outros do galinheiro. Aquela nossa ninhada também era igual a todas as outras. Quando os ovos picaram, nasceu um pintinho igual aos outros 11 do ninho. Parecia um pompom amarelinho e indeciso, correndo de um lado para outro ao aviso da mãe galinha. Não sabia como sabia, mas sabia. Um “có” curto, um “có” um pouco mais longo, dois ou três seguidos... Cada um queria dizer uma coisa que ele sabia o que era sem ter tido nenhuma aula a respeito. “Venham pra cá.” “Cuidado, tem um gavião à espreita!” “Isso é um grão de arroz.”
Um dia ao bicar uma minhoca, na hora do seu almoço, viu, de repente, bem junto dele, uma cobra e levou o maior susto que perdeu a voz. Inda bem que a cobra já tinha comido e não deu bola pra ele e foi-se. Mas o mal já tinha sido feito. A voz tinha ido com a cobra. Então, enquanto os outros pintinhos piavam, Pompom não soltava pio algum. Aí eles cresceram e se tornaram frangos. Enquanto os outros faziam “có” ele nem um pio. De frango a galo foi um pulo. Todos tomaram os seus rumos e foram levados para fazendas, chácaras, panelas e espetos. O nosso galinho mudo, não sabemos por que foi comprado por um homem que vivia de preto e gravata borboleta.
Todos os dias, antes do sol nascer, ele fazia o maior esforço para cantar, como os outros galos, mas... nada! Até o aconselharam a consultar um fonoaudiólogo, mas ele achou bobagem.
A casa onde morava era muito visitada. Quase todos os dias chegavam pessoas carregando coisas. Ele ficou curioso e foi lá, mais perto, para poder olhar por uma das janelas da casa e descobriu que as coisas que os homens traziam chamavam-se instrumentos, o seu dono era um maestro e ensaiava sua orquestra. Ele achou muito bonita a orquestra, gostou e todos os dias de ensaio procurava o seu lugarzinho para assistir.
Assim, assim mesmo, sem ter um motivo específico, começou a praticar solfejo junto com a orquestra e, passado um tempo, aprendeu a cantar, só que, hoje, de madrugada, antes do sol nascer, em vez de “có-có-ri-có” ele canta Lo Schiavo, da Alvorada de Carlos Gomes.