Anestesiando a dor

Dor de cabeça, dores nas articulações, quadril, estômago etc., e mesmo com muitas medicações, a dor persiste. Por quê? E fazem “vias sacras” à infinidade de especializações? Sabia que, o não-dito ou indizível, dói? O corpo fala por você. Deixando de chorar, quem chora é o próprio corpo. Há os que são as próprias dores, ou seja, inexistem. A dor passa a constituir um ente, com vida própria, até com possibilidade de interlocução. Há os que sobrevivem por causa da dor, é só o que tem, dor e nada mais. E se porventura, alguém propuser tirar a dor, nunca mais retornam para a consulta. Sobrevivem por terem somente a dor como parceira. 
Há os que precisam de estimulação e cumplicidade em suas queixas, pois são seus objetos de desejos e ganhos-secundários. Na ausência da dor corporal, o que ficará? Há casamentos onde a dor forma a relação triangular. O cônjuge elege a dor para exclusão do parceiro. Há personificação da dor. “Eu me casei com a dor e o meu cônjuge fica excluído da relação”. “Preciso da dor, assim minha esposa permanece alheia, pois desaprendi a amar. Ou nunca soube”. “É mais fácil manter relação com a dor corporal, pois assim deixo de re-visitar aquela dor primária (angústia), em que prefiro que permaneça cristalizada”. 
A pessoa com dor corporal procura o ortopedista, nefrologista, pneumologista, hematologista, reumatologista, cardiologista etc., e nada encontra para fundamentar as suas queixas. Muitas vezes, são encaminhados para o anestesista, para anestesiar a dor que irradia por todo corpo. “Assim, camuflo e disfarço a real dor psíquica. Quero esquecer anestesiando-me”. Dizem. Há dor psíquica. Ela origina-se, muitas vezes, de forma muito precoce. Há “dor” herdada de gerações passadas (filogenéticas). Há “dor” da ordem intra-uterina (ontogenética). Também, “dor” herdada durante o nascimento (congênita), como intercorrências orgânicas ou fisiológicas em que o bebê submete-se a algum procedimento cirúrgico. 
Sob o ponto de vista sensorial, armazena experiências emocionais pré-simbólicas. Exemplo: João com 8 anos, durante o nascimento, submeteu-se à cirurgia cardíaca. Tem transtorno de pânico. Ele fica aterrorizado com o barulho do vento. Relata falta de ar, tonturas, náuseas, palpitações e sensações de desfalecimento. Desespera-se e precisa ser levado ao pronto-socorro com medo de morte iminente. Obviamente precisa de uma retaguarda medicamentosa. 
Sigmund Freud dizia que para esquecer os traumas, é necessário lembrar-se deles. É preciso recordar para elaborar, ensinava ele. Aspectos inconscientes, referentes a acontecimentos do passado, relacionavam-se com a crise do momento. Na dor somática, é necessário ir em busca de um sentido psíquico. Na relação com o psicanalista, experiências como essas, que aparecem com frequência, merecerão um trabalho de reconstrução da história que não pode ser relembrada e falada, pois o bebê havia acabado de nascer. 
Melanie Klein já dizia que emoções e fantasias pré-verbais são revividas na situação transferencial com lembranças em sentimento, que devem ser reconstruídas e postas em palavras com a ajuda do analista. Freud ainda nos ensina que o trabalho com construções para se chegar a um quadro dos anos esquecidos do paciente, pretende obter uma luz para aquilo que não pode ser compreendido no passado remoto, quando o psiquismo não tinha condições de assimilar a experiência. 
Muitos pacientes que vêm consultar nos apresentam uma sintomatologia a esclarecer. Passaram por muitos profissionais. Observamos um empobrecimento de sua capacidade para simbolização, ausência quase absoluta de sonhos, de devaneios, ausência de atividade criativa, pouco contato com seus desejos, utilidade empobrecida de expressões emocionais, com uma aderência extrema ao factual e à realidade material. No lugar de manifestações psíquicas ou emocionais, permanecem totalmente adaptados às dores físicas. As relações interpessoais são caracterizadas pela indiferenciação. Enfim, o ideal é que, quando a dor, seja ela qual for, tanto física como psíquica persiste, necessita de investigação e construção em um vértice psicológico. Busque ajuda especializada de psicoterapeutas e psicanalistas.
 

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