Era o horário pós o almoço, do trabalho. A conversa girava em torno de pessoas que têm cachorro em casa, por causa de uma notícia que tinham visto na televisão na noite anterior e nos jornais do dia sobre um cão pit bull que havia matado uma criança num bairro periférico da cidade. As opiniões divergiam, como sempre acontece nesses casos.
- Cachorro pequeno ainda eu aceito que se tenha... - disse um – se tiver espaço para o bichinho viver tranquilo.
- Mas não em apartamento! – rebateu o outro – É uma espécie de escravidão. Se gostam tanto do animal, por que mantê-lo fechado e, muitas vezes, sozinho?
- Eu gosto de cachorro. Acho que é um dos poucos animais que têm expressão. Você sabe quando está alegre, quando está triste, chateado, doente... Eu gosto de cachorro. Não gosto é de certos donos que tratam os bichos como crianças, com lacinhos na cabeça, sapatinhos... e falam “vem com a mamãe”... Um amigo meu apontado como “vovô” disse: “Vovô, não! Eu não tenho filha cadela!”
- É verdade. Se você mora no interior numa casa grande... até mesmo em São Paulo, numa casa com quintal, vá lá. O bicho fica solto, à vontade... Quando morava no interior eu tive vários. Todos soltos, à vontade, livres e mansos. Não tinham festa de aniversário, não dormiam em nossas camas, não iam a veterinários e não comiam ração. Não tinham “psicólogos” ou “pedólogos”. E morreram de velhos.
- É. Esses cachorros de madame só servem pra sujar calçadas e deixar convidados em saia justa... Outro dia um deles me pegou na canela como se minha canela fosse uma cadelinha qualquer... Foi um sufoco tirar o bichinho dali. E a vergonha que eu passei? Todo mundo rachou o bico e eu fiquei com cara de tacho.
- Não é bem assim, esse negócio de sujar calçadas, que você falou... As madames andam com seus saquinhos plásticos e...
- Jogam no pé da primeira árvore que encontram.
- Eu sou mais cachorro grande. Esses de guarda.
- Que guardas, seu? São bravos apenas. Com qualquer um. Não distinguem o cidadão que foi buscar o pão na padaria, ou o carteiro, de ladrões que entram e roubam tudo... E mais, latem, latem, latem a noite inteira enchendo o saco dos vizinhos. Latem por nada, seu... E há aqueles que latem como se fossem programados, sem tomar fôlego: au... au... au... au... au... infinitamente. Acho que a população canina é maior do que a humana!
- Mas e esse negócio de pit bull e outros que tais? Esses são piores. Não respeitam nem o dono! Não vê o caso do menino do jornal? Estraçalhou o coitadinho...
- Aconteceu, aconteceu. Foi uma fatalidade. Vai ver o moleque encheu tanto o saco do cachorro que ele perdeu a calma. Não são bravos, não. Esses cachorros são treinados, rapaz...
- E mordem o dono, matam criancinhas...
- Não! São dóceis!
- Tá louco, cara, esses cachorros são ferozes paca - dizia outro.
- Vocês estão enganados. Não é assim, não - defendeu o primeiro. - Esses cachorros, normalmente são mansos, dóceis... Eles têm escola, são ensinados a serem assim, aprendem comportamento. Têm treinamento com adestradores profissionais.
- Mas eu não vou nessa, não. Uns têm treinamento, tem personal trainer, aulinhas de etiqueta etc e tal - disse o primeiro. – Mas, fala aí, e se eu encontrar um pit bull autoditada?...