Casa Sertaneja

Benjamin Resende

COLUNA - Benjamin Resende

Data 21/02/2021
Horário 05:00
Foto: Reprodução
Sr. Seppa e esposa, no dia das crianças, em frente A Sertaneja, 1948
Sr. Seppa e esposa, no dia das crianças, em frente A Sertaneja, 1948

De repente, o tempo passou”. Foi a frase de Wilma. Lembrava-se de seu pai, José Seppa, o primeiro comerciante estabelecido em Presidente Prudente, no ramo de papelaria, na rua Barão do Rio Branco. Na Casa Sertaneja, vendiam-se papéis e livros. Principalmente papel. Papel de todo o tipo. Papel acetinado, papel aéreo, papel almaço, papel apergaminhado, papel bonde, papel bufã, papel crepom, papel cuchê, papel de chupar (mata-borrão), papel de linho, papel linha d´água; enfim, papel. Tudo era importado. Com tanto papel de tipo diferente, a estudantada fazia seus trabalhos. A dona de casa picotava-o para enfeites atoalhados na dispensa, cozinha e debaixo dos vasos que enfeitavam as cantoneiras. A casa do Seppa tinha papel para todo e qualquer gosto. A Casa Sertaneja exerceu um papel importante na vida escolar dos prudentinos, desde a década de vinte, até a de oitenta. Mas a conversa com Wilma foi diferente. Lembrávamo-nos do Seppa músico, do exímio violinista e pianista. Foi ele, com sua veia musical, que formou o primeiro coro em Prudente, juntamente com Maria Zangari, sua esposa, a irmã Rosa Memari e alguns jovens da época. A Igreja do Padre Sarrion, pequena e simples, enchia-se de canto e a melodia espalhava-se contemplativa, nos ouvidos dos fiéis. As igrejas, Católica, Metodista, Batista, Presbiteriana e Adventista, as primeiras a se alicerçarem nos primórdios da cidade, foram vitais para a criação de corais. Todas elas se dedicavam à música, uma vez que o canto a alma eleva a Deus. Os coros das igrejas alegravam a cidade, sem rádio e sem música ao vivo. A Católica, ao gosto do seu vigário, ensaiava cantos gregorianos para as festas religiosas. As Evangélicas, pela sua tradição, que se desenvolveu a partir da Reforma Protestante, se afinavam com os corais de Bach. Todas tinham o seu coro. Eram vozes afinadas, cantando e enlevando. Essa boa música atraía os habitantes da cidadezinha. Os cantores se aglutinavam e executavam peças em uníssono ou a várias vozes. Vozes mistas de soprano, contralto, tenor e baixo formavam um orfeão. E o canto sacro enchia a nave, reboando pela abóbada, e todo o templo era uma oração. Alguns nomes marcaram o coro das igrejas prudentinas. Entre eles: Seppa, Martins, Bendrat, Duca, Concato, Memari, Vitale, Teles, Prestes Cesar, Whitaker, Abraão e inúmeros outros. Vozes que cantaram um hino de louvor a Deus e os fiéis, contritos e meditativos, elevaram seu coração ao Senhor dos Universos. Voltemos ao Seppa. Um homem bonachão. Com sua alma musical, tocou violino nos cinemas mudos de Prudente. Animou festas e proporcionou momentos agradabilíssimos. Mais tarde, seguiu, imperiosamente, sua vocação musical. Fez da Livraria Seppa um ponto musical, vendendo instrumentos musicais e, principalmente, partituras. Entendia do riscado. Afinava todo e qualquer instrumento. Contava ele que, em 1927, na festa de aniversário de Prudente, era Prefeito o dr. Félix Ribeiro. Estava no auge a disputa política entre as facções Goulart e Marcondes. A festa de 14 de setembro se realizaria com desfiles de militares, estudantes e carros alegóricos. Os alunos do grupo escolar cantariam hinos, ao passarem pelo palanque, e o Seppa, com seu violino, ali, daria o tom, para a meninada não desafinar. Também lhe dera o Dr. Félix a incumbência de, quando um orador se exaltasse demais ou se eternizasse na arenga, a ordem seria tocar o violino e abafar a voz do orador. Um dos oradores, na ocasião, era o Ramos de Castro, que desandou a discursar prolixa e enfadonhamente, de modo que, a certa altura, o violino do Seppa comeu grosso. O dr. Félix começou a aplaudi-lo, seguido pelos espectadores e autoridades, num coro entusiasta, ritmado e oportunista. A frase final esbravejada do dr. Ulysses Ramos de Castro foi: “Ou o violino do Seppa cala ou eu arrebento as minhas cordas vocais...”. E o som do violino cortava os ares, acompanhado dos aplausos do povo, sufocando qualquer voz que se aproximasse do microfone.


 

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