Há tragédias que não deveriam mais acontecer. Que já foram amplamente debatidas, denunciadas, combatidas e ainda assim insistem em se repetir. A morte da estudante Lorena Lourenço Silva, de apenas 12 anos, em Álvares Machado, é um desses casos que escancaram não apenas a dor de uma perda irreparável, mas também a persistência de uma irresponsabilidade coletiva que beira o inadmissível.
O uso de cerol em linhas de pipa não é novidade. Tampouco são novos os alertas, as campanhas educativas, as leis que proíbem sua comercialização e utilização. Ainda assim, em pleno 2026, seguimos convivendo com uma prática perigosa, cruel e, sobretudo, evitável. O que está em jogo não é apenas uma brincadeira de infância, é a vida de pessoas.
A cena descrita na investigação policial é devastadora. Uma menina, dentro de um veículo, tem a vida interrompida por uma linha cortante que jamais deveria estar ali. Não se trata de fatalidade. Não se trata de acaso. Trata-se de negligência, de imprudência e, acima de tudo, de uma escolha consciente de ignorar os riscos.
É preciso dizer com todas as letras: soltar pipa com cerol não é “tradição”, não é “diversão inocente”, não é “coisa de criança”. É uma prática potencialmente letal. Motociclistas, ciclistas, pedestres e até mesmo ocupantes de veículos estão expostos a um perigo silencioso, quase invisível, mas devastador em suas consequências.
A ação da Polícia Civil, que apreendeu materiais e instaurou inquérito, é necessária e deve ser rigorosa. Mas ela, sozinha, não resolve o problema. A raiz está em uma cultura de permissividade, onde muitos ainda tratam o cerol como algo banal, ignorando seu poder destrutivo. Falta fiscalização, sim — mas falta, sobretudo, consciência.
É urgente que a sociedade, como um todo, assuma sua responsabilidade. Pais precisam orientar seus filhos. Escolas devem reforçar o debate. O poder público deve intensificar campanhas e fiscalizações. E cada cidadão precisa entender que pequenas atitudes podem evitar grandes tragédias.
A morte de Lorena não pode ser apenas mais um número, mais um caso que se perde no tempo. Ela precisa ser um marco de reflexão. Um ponto de virada. Porque quando uma prática conhecida, proibida e amplamente divulgada continua tirando vidas, o problema já não é falta de informação é falta de compromisso com o próximo. E isso, definitivamente, não pode mais ser tolerado.