A cada feriado prolongado, repete-se um roteiro que já deveria estar superado: estradas movimentadas, fiscalização intensificada, campanhas educativas reforçadas — e, ainda assim, vidas interrompidas. No oeste paulista, a recente Operação Carnaval, conduzida pela Polícia Militar Rodoviária, expôs mais uma vez a face mais cruel da imprudência no trânsito.
Entre a zero hora de sexta-feira e o meio-dia de quarta-feira, foram registrados 10 acidentes, com cinco mortes, três vítimas graves e cinco leves. Os sinistros fatais ocorreram nos municípios de Martinópolis, Pirapozinho, Estrela do Norte e Piquerobi — cidades que agora somam às suas rotinas o peso do luto. Cada número divulgado carrega histórias interrompidas, famílias devastadas e comunidades marcadas por perdas irreparáveis.
Não se trata de um cenário imprevisível. Ao contrário. A própria corporação foi enfática ao lamentar que, mesmo diante de alertas e esforços das autoridades, ainda sejamos obrigados a conviver com índices tão expressivos de violência viária. O dado que chama atenção — 1.209 autuações por excesso de velocidade, registradas por imagens de radar — revela um comportamento persistente e preocupante. A pressa, muitas vezes associada a uma falsa sensação de controle, segue sendo um dos principais combustíveis da tragédia.
Mais doloroso ainda é reconhecer que a maioria dessas ocorrências poderia ter sido evitada. Não se trata, em grande parte, de fatalidades inevitáveis, mas de consequências diretas de imprudência, negligência ou imperícia. Excesso de velocidade, desatenção, uso indevido do celular ao volante, travessias em locais inadequados: atitudes que banalizam o risco e normalizam o desrespeito às regras criadas justamente para preservar vidas.
É preciso enfrentar uma verdade incômoda: campanhas educativas e fiscalização são indispensáveis, mas não bastam quando não encontram respaldo na consciência individual. O trânsito é, antes de tudo, um espaço coletivo, onde a liberdade de um termina onde começa a segurança do outro. Cada escolha ao volante — acelerar além do permitido, responder a uma mensagem, ignorar a sinalização — é uma decisão que pode custar não apenas uma multa, mas uma existência.
O apelo feito pela Polícia Rodoviária para que a dor se transforme em reflexão não pode ecoar no vazio. Transformar luto em atitude exige mais do que comoção momentânea; demanda mudança de cultura. Exige que cada condutor compreenda que dirigir é um ato de responsabilidade social. Que cada pedestre reconheça sua parcela de cuidado. Que cada passageiro se recuse a compactuar com comportamentos de risco.
Enquanto encararmos os sinistros como estatísticas passageiras de feriado, continuaremos a repetir os mesmos erros. É hora de interromper esse ciclo. Que as cinco vidas perdidas no oeste paulista não sejam apenas mais um registro em relatório oficial, mas um marco para reforçar um compromisso coletivo com a prudência, o respeito e a preservação da vida.