Colegas da Prudenco lotam velório de Julcelino

Coletor de lixo foi atropelado por caminhão da empresa enquanto trabalhava na manhã de segunda, no distrito de Montalvão

PRUDENTE - MARIANE GASPARETO

Data 05/04/2017
Horário 09:37
 

Caminhões compactadores de lixo, pintados de laranja e verde – cores do uniforme de funcionários da Prudenco (Companhia Prudentina de Desenvolvimento) – se enfileiravam em uma espécie de carreata na manhã de ontem, em Presidente Prudente. Muita gente assistia a cena pensando que talvez simbolizasse uma comemoração, sem imaginar a trágica história que conduziu aquelas pessoas até ali. A narrativa gira em torno de um homem simples, tímido e esforçado, chamado Julcelino Neves de Alencar, 32 anos, morto por uma fatalidade na segunda-feira. Coletor da Prudenco, ele prestava um essencial serviço à comunidade, mas que nem sempre recebe o valor devido.

Jornal O Imparcial Símbolo de orgulho, uniforme do coletor foi posto sobre caixão

Segundo relatos dos colegas ouvidos pela reportagem, durante o velório realizado no Cemitério Municipal Campal, ele trabalhava no distrito de Montalvão, quando chegou a uma rua sem saída, fazendo com que o motorista realizasse uma manobra raramente necessária, dando ré no caminhão compactador. Nesse momento, Julcelino se desequilibrou e deslizou para o chão, sendo atingido pela roda do veículo por duas vezes.

 

Relatos

No cemitério se reuniam dezenas de trabalhadores da Prudenco, todos uniformizados em homenagem ao colega. Emocionados, poucos aceitaram dar entrevista, diante da carga emocional que envolve o acidente. Um deles, Julio Cesar dos Santos, 37 anos, compartilhou a trajetória e personalidade do amigo. "Era um rapaz muito bom, de bem com a vida, sorridente e alegre, mas bastante tímido e humilde", resume, lembrando ainda da dedicação do colega, que trabalhava até quando estava doente. Ele começou na empresa em 2014, quando passou no concurso para varredor. Seguiu estudando e então prestou novamente a prova, conseguindo uma vaga como coletor.

O consenso entre os funcionários era de que foi uma fatalidade e eles não reclamavam, em momento nenhum, das condições de trabalho. "Poderia ter acontecido com qualquer um". Esse medo agora assombra não só os trabalhadores, mas seus familiares, segundo o coletor Edson Fernandes da Silva, 45 anos, que trabalhava diretamente com Julcelino. "Medo a gente passa todo dia, mas a vida tem que continuar".

Apesar disso, para Edson, o resto da semana será bastante difícil para a maioria dos colegas, especialmente aos que presenciaram o acidente e permanecem extremamente impressionados. "É meio surreal pensar que isso aconteceu, especialmente com um rapaz tão responsável e gente boa", declara.

 

Reconhecimento

Na atmosfera lúgubre da casa de velório, destacava-se o caixão lacrado com uma imagem do falecido. Seu uniforme, ao lado, simbolizava o orgulho da função exercida: por tantas vezes invisibilizada, mas que ali era protagonista.

Contrariando convenções sociais, "gente importante" homenageava o coletor de lixo, que recebeu coroas de flores não só de seus amigos e familiares, mas dos vereadores, da Prefeitura, da empresa, e do sindicato de sua categoria. Triste fato, porém, é que tamanha tragédia tenha sido necessária para que Julcelino recebesse o merecido reconhecimento.

 

Veja também