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OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 13/09/2020
Horário 06:20

Durante este período de pandemia, tenho tido uma estranha relação com o tempo e com o passado. Uma percepção híbrida que combina sentimentos profundos e de longa duração com inumeráveis episódios ligeiros que me empurram para o final de sexta-feira. Estou aqui, novamente, escrevendo a minha crônica semanal. Mas eu não tinha realizado esse exercício de escrita ainda ontem?

Tomado por tais sentimentos difusos, deitei exausto no sofá da sala e mergulhei em um sonho. Eu me encontrava numa pequena gota de água levantada pelo vento acima das ondas do mar. O mundo girava ao redor da minha cabeça, como uma deusa que surgia das trevas, envolvida em véus brancos ondulantes, por meio de movimentos em rodopios, comparáveis a uma dança... Naqueles microcosmos da gotícula marinha, era possível contemplar milhares de seres unicelulares flutuando de um lado para outro. Logo conclui: são os plânctons, que povoam os oceanos há bilhões de anos!

Talvez esse sonho tenha durado frações de segundos. Lentamente fui restabelecendo a consciência. Mas ainda escutei uma voz. Havia um professor ministrando uma aula. Dizia ele: - A atividade vulcânica é responsável por grande quantidade de carbono espalhado na atmosfera. Quando em erupção, os vulcões o expelem e, em contato com a água, ele reage e transforma-se em carbonato de cálcio, que é matéria-prima das conchas e dos esqueletos dos animais marinhos.

Interrompendo a sua fala com um olhar fixo para seus estudantes, o professor indagou: - O que acontece quando esses animais morrem?; e sem esperar a resposta, completou: - Ora, suas conchas e seus esqueletos acumulam-se no fundo do mar e podem dar origem a uma rocha chamada calcita. Caso todo esse material não fosse processado, os plânctons seriam sufocados por toneladas de sedimentos. Mas as diatomáceas utilizam grande quantidade de sílica para formar suas conchas. Quando elas morrem, completa-se o ciclo!

Acordei subitamente. Era o Dr. Fonseca, meu professor de geografia física na época que cursei a graduação na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, em meados da década de 1980. Quando mais jovem, ele fez parte da equipe de professores que deu origem ao curso de geografia da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Presidente Prudente. Chegou inclusive a ser diretor da unidade. Acabou deixando por aqui o professor Fernando Salgado, seu sobrinho, responsável pela formação de muitos docentes que ainda estão por aqui. Fiquei pensando nessas incríveis coincidências: ondas do mar, conchas, plânctons, professores. São as conectividades, diria o professor Paulo Cesar da Rocha!

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