Eu tenho uma ligeira impressão de que parte significativa daquilo que nos tira a paz no dia a dia vem do que eu chamaria situações bem pequenas, irrelevantes, mas que não deveriam ser ignoradas. Sabe o juizado de pequenas causas? Pois é, tipo isso. Mas eu avançaria mais ainda e criaria a Corte Suprema das Irrelevâncias. Vi algo parecido na rede, aliás, e gostei da ideia de levar a sério o que todo mundo insiste em tratar como "besteira".
Neste contexto, deveríamos colocar em julgamento tudo aquilo que parece bem bobo, mas não é. Vou listar:
• Na Corte Suprema das Irrelevâncias, eu quero reclamar de quem faz o trabalho com má vontade absurda, como se o cliente estivesse ali para atrapalhar a existência do funcionário;
• Na Corte Suprema das Irrelevâncias, seria bem-vinda uma ação civil pública para acabar com a exigência das lojas em pedir CPF, login no app, desconto com isso ou aquilo e por aí vai para que a venda seja finalizada. Quero comprar, pagar e ir embora. Ponto adicional para os lugares mais odiosos onde isso acontece: farmácias e supermercados;
• Na Corte Suprema das Irrelevâncias, quero uma medida protetiva contra as pessoas que não pontuam as frases e falas na internet, bem como erram grotescamente a gramática. Parece que a rede virou um território livre para erros vergonhosos;
• Na Corte Suprema das Irrelevâncias, não dá para admitir mais que as redes sociais entreguem conteúdo apenas se ele for viral ou não. Se eu tenho 3 mil amigos/seguidores, o que eu publicar vai para todos eles, e ponto final;
• Na Corte Suprema das Irrelevâncias, quero processar o ato de acordar cinco minutos antes do despertador. Não há crime mais premeditado contra o descanso alheio. São cinco minutos preciosos de sonho arrancados e o pior: ficamos ali, de olhos abertos, aguardando a sentença final do alarme tocar;
• Na Corte Suprema das Irrelevâncias, é inadmissível o crime da meia que entra para lavar formando um par e sai da máquina viúva. Para onde ela foi? É preciso uma investigação profunda nos bastidores da lava e seca;
• Na Corte Suprema das Irrelevâncias, quero processar o motorista que fica com a seta piscando por quilômetros, sem nunca entrar na maldita rua. Gera falsas expectativas, sustos desnecessários e uma ansiedade coletiva atrás dele;
E há muito mais, com certeza. Cada um pode aumentar esta lista conforme aquilo que lhe tira o sono e a paciência. O que nos leva à conclusão inevitável: a vida é uma sucessão de pequenas irritações irrelevantes. E, no final, o que nos resta é torcer para que a Corte Suprema das Irrelevâncias, mesmo sem existir oficialmente, faça justiça.