Esta coluna tratou recentemente da obesidade infantil no Brasil, mas o tema precisa voltar porque os números pioraram. O Atlas Mundial da Obesidade 2026 acaba de ser publicado e mostra uma mudança no modo como crianças e adolescentes estão vivendo. Pela primeira vez, há mais crianças com obesidade do que com baixo peso no mundo. No Brasil, isso significa 16,5 milhões de jovens entre 5 e 19 anos com excesso de peso. Entre eles, cerca de 1,3 milhão já apresentam hipertensão relacionada ao peso, quase 1,8 milhão têm triglicerídeos elevados e aproximadamente 4 milhões convivem com algum grau de gordura no fígado.
Esses dados são importantes porque obesidade infantil não é uma questão estética, nem um problema que pode ser deixado para a vida adulta. O adulto que sofre um infarto aos 40 ou 50 anos muitas vezes carrega, desde a infância, sinais que poderiam ter sido reconhecidos mais cedo.
A Organização Mundial da Saúde recomenda que crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos façam, em média, 60 minutos diários de atividade física. Para adultos, a orientação é de 150 a 300 minutos por semana. Ou seja: a criança precisa se mexer mais do que o pai e a mãe. No Brasil, cerca de 84% dos adolescentes não atingem essa recomendação. O problema é o excesso de telas, pouco espaço seguro para brincar e uma rotina em que o movimento deixou de ser parte natural da infância.
É preciso falar da alimentação sem transformar a conversa em culpa. A criança não escolhe sozinha o que entra na despensa. O adolescente não decide o que será servido no jantar. Muitas famílias estão tentando fazer o melhor possível dentro de uma rotina apertada, com pouco tempo, orçamento limitado e uma oferta enorme de produtos baratos, prontos e altamente palatáveis. Ainda assim, reconhecer esse cenário não diminui a responsabilidade dos adultos; pelo contrário, ajuda a direcioná-la.
Prevenção começa no carrinho do supermercado, na frequência com que produtos ultraprocessados entram em casa, no hábito de beber refrigerantes todos os dias, na presença de frutas, arroz, feijão, ovos, legumes e comida de verdade no prato. Começa também na rotina: comer junto quando possível, reduzir beliscos diante da tela, dormir melhor e devolver à criança oportunidades simples de gastar energia, brincar, pedalar, jogar bola, subir escadas, correr no quintal ou onde for seguro.
O ponto central é: não estamos diante de um problema de força de vontade. Estamos diante de um ambiente que favorece ganho de peso, sedentarismo e adoecimento precoce. Mas a casa ainda é um dos lugares mais poderosos para mudar essa trajetória.
O coração das crianças está sendo exposto cedo demais a fatores de risco que antes eram vistos só em adultos. Ainda há tempo de mudar a curva, mas isso exige decisões, feitas dentro da rotina de cada família, antes que os exames de uma criança comecem a contar uma história que poderia ter sido diferente.