Crônica da morte anunciada

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 09/04/2024
Horário 06:00

Estou realmente bem assustado com o investimento global em desinformação e com os efeitos complexos que ela pode trazer nos ambientes democráticos. 
As redes sociais são o espaço por excelência para discursos cada vez mais voltados a projetos imensos de poder, seja no campo financeiro ou no campo econômico, e quando estes dois se juntam, então, é bom ficar ainda mais atento.
A recente investida do bilionário sul-africano Elon Musk na soberania nacional precisar colocar as autoridades brasileiras em alerta máximo para um problema que, se instalado, dificilmente será combatido. Falo aqui de um conjunto imenso de ingerências que poderão ser realizadas via redes sociais.
Ontem, Musk cumpriu sua promessa de reativar contas bloqueadas pela Justiça brasileira na rede social X, da qual é proprietário, e de quebra ainda sugeriu que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Alexandre de Moraes, renunciasse ao cargo por exercer atos de censura e impedir a liberdade de expressão dos brasileiros.
Bem, do ponto de vista de Elon Musk, é preciso ser muito iludido, inocente ou mal-intencionado para achar que este empresário está realmente preocupado com liberdade de expressão em nosso país. Seu mais real objetivo são os milhões e milhões de dólares que ele pode ganhar com o X aqui no Brasil. É um mercado em potencial, não tão massificado, mas muito bem frequentado por formadores de opinião e, portanto, riquíssimo em conteúdo. 
O que nos leva à segunda parte do esquema. Sob meu ponto de vista, com a investida, Musk descortina uma articulação importante com políticos ligados à extrema-direita, que vão desde Donald Trump, passando por Javier Limei (Argentina), Tayyip Erdongan (Turquia) e Marine Le Pen (França), até chegar a Jair Bolsonaro (Brasil). Como já é sabido, parte considerável do plano de poder destes nomes e de tudo que representam, incluindo aí um contingente significativo do capital neoliberal, passa pelo discurso de convencimento de suas propostas a partir de uma presença massiva nas redes sociais e com uso mais massivo ainda de desinformação a partir das fake news.
Ou seja, sem redes sociais ativas, nada feito para que sejam mobilizadas massas importantes da população e o que se viu de domingo para cá demonstra claramente que qualquer ação judicial, executiva ou legislativa que coloque em risco o livre trânsito de informação nas plataformas será desafiada. Pelo menos por parte do X e com um detalhe ainda mais significativo: o Brasil deixou recentemente de votar a regulação e posterior regulamentação das redes sociais a partir do Projeto de Lei 2630/2020 e as empresas continuam isentas de qualquer responsabilidade.  
Em resumo, a crônica hoje é de uma morte anunciada: livres de qualquer tipo de responsabilidade e atuando de maneira transnacional, as plataformas on-line podem fazer o que quiserem, quando bem entenderem. Inclusive pode chegar ao ponto de ameaçar democracias, como a brasileira. Oremos.    

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