Aos 17 anos, as escolhas costumam carregar o peso da urgência, mas raramente a totalidade de quem somos. Quando Flávia Regina Fernandes Soares ingressou no curso de Comunicação Social da Unoeste, em Presidente Prudente, no ano de 2003, ela buscava dar vazão ao seu fascínio pelas histórias humanas. Naquela época, os pais nunca haviam pisado em uma universidade, e o jornalismo era a ponte acessível para o mundo. O papel impresso, o cheiro de tinta da rotativa e o olhar atento às ruas prudentinas moldaram seus primeiros anos profissionais.
Foi nos corredores de O Imparcial, sob a tutela do saudoso chefe de redação Reinaldo Ruas e com o empurrão do professor José Artur, que ela aprendeu a sua lição mais valiosa: o jornalismo, antes de ser sobre escrever, é sobre silenciar para escutar.
Mais de duas décadas depois daquele primeiro estágio, a mesma Flávia que assinava reportagens no O Imparcial subiu ao palco da prestigiada UT Southwestern Medical School, em Dallas, no Texas. Vestindo o jaleco branco e o estetoscópio, ela celebrou sua graduação em Medicina. A conquista memorável encerra um ciclo de profunda reinvenção e abre as portas para sua residência em Medicina da Família (Family Medicine). Para quem acompanhou os seus primeiros passos com o bloco de notas em Prudente, a vitória é o testemunho de que o destino aceita rascunhos, mas se consolida na coragem de reescrever o próprio enredo.
O FRONT DA FORÇA AÉREA E O PACTO DE AMOR
A engrenagem que mudou o rumo da vida de Flávia começou a girar quando ela deixou Presidente Prudente rumo a São Paulo, em 2010. Trabalhando em uma agência de comunicação com forte atuação internacional, seu inglês fluente a colocou na liderança de contas globais. Foi em uma dessas conexões que o amor cruzou o seu caminho através de um jovem texano, militar da Força Aérea dos Estados Unidos. A mudança para o hemisfério norte selou o relacionamento. Porém, os primeiros anos não foram simples: o marido foi enviado ao Afeganistão, enfrentando nove meses de um cotidiano de incertezas e orações.
Quando ele retornou, sutilmente transformado pela crueza da guerra, o casal sentou-se à mesa para traçar as coordenadas do futuro. Ele decidiu deixar as Forças Armadas e aceitar a bolsa de estudos militar para cursar Engenharia Eletrônica. Foi o estalo que Flávia precisava.
"Eu sempre quis estudar Medicina, acho que vou tentar ir para essa carreira", confidenciou ao parceiro, esperando um olhar de ceticismo. Recebeu, em contrapartida, um abraço e uma resposta direta: "Então tá, por que não? Vamos que vamos".
A decisão de iniciar a jornada médica na vida adulta, em um país estrangeiro e em outra língua, exigia uma dose extra de fé. Aquela antiga admiração pelos amigos que cursavam Medicina na Unoeste, quando ela observava o fascinante equilíbrio entre arte e ciência no estudo do corpo humano, finalmente encontrava espaço para desabrochar.
O TESTE DEFINITIVO E O SOPRO DE VIDA
A validação de que Flávia havia escolhido o caminho certo não veio apenas com as notas excelentes na exigente faculdade texana, mas em um momento de drama absoluto na vida real. Há um ano, durante uma visita de férias ao Brasil, o cenário de calmaria familiar transformou-se em urgência médica quando o seu pai sofreu um infarto agudo do miocárdio diante de seus olhos.
Sem hesitar, a ex-jornalista e então estudante de Medicina assumiu o controle da situação e iniciou as manobras de reanimação cardiopulmonar (RCP).
Aqueles minutos de compressões torácicas garantiram a sobrevivência do pai e funcionaram como um batismo de fogo emocional. A experiência traumática, mas vitoriosa, solidificou sua paixão pela atenção primária à saúde. Salvaguardar a vida antes que o colapso aconteça tornou-se sua missão.
A MEDICINA DO OLHO NO OLHO
Mãe da pequena Alice, de 5 anos, Flávia divide o tempo entre a rotina exaustiva dos plantões, as poesias e histórias infantis que escreve para a filha, e os raros momentos de lazer explorando os parques estaduais do Texas. Ao escolher a UT Southwestern para sua formação e residência, ela buscou o acolhimento de um corpo docente que prioriza o lado humano do ensino, uma extensão do que ela mesma deseja aplicar no trato com os pacientes.
Seus anos de reportagem no interior paulista deixaram uma herança que nenhum supercomputador médico consegue simular.
"Se eu precisasse fazer tudo de novo, eu faria tudo de novo. O mais importante que aprendi em Prudente foi olhar as pessoas nos olhos, me comunicar bem, ouvir. Parece simples, mas no dia a dia, principalmente quando você vai tratar alguém, é mais importante ouvir do que falar", reflete a médica.
Ao migrar da máquina de escrever para o prontuário clínico, Flávia não abandonou a sua essência comunicadora; ela apenas elevou o significado da palavra empatia. Sua trajetória lembra que as grandes reportagens e os diagnósticos precisos nascem do mesmo ponto de partida: a capacidade de acolher a dor do outro com respeito, presença e humanidade.

FLÁVIA REGINA AGORA É RESIDENTE MÉDICA PELA MESMA UT SOUTHWESTERN