A dengue insiste em fazer parte do cotidiano brasileiro como uma presença incômoda, previsível, recorrente e, ainda assim, subestimada. Entra ano, sai ano, os números oscilam: há períodos mais intensos, outros aparentemente mais brandos. Mas a doença nunca vai embora. Permanece à espreita, alimentada por descuidos coletivos e pela dificuldade histórica de transformar prevenção em hábito permanente.
O recente episódio em Dracena reforça esse alerta. A Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Saúde e Higiene Pública, manifestou solidariedade aos familiares de um morador de 60 anos que faleceu nesta semana, enquanto aguarda a confirmação se a causa foi, de fato, a dengue. Com responsabilidade, a administração destacou que o caso ainda está sob investigação epidemiológica, com amostras enviadas ao Instituto Adolfo Lutz, e que todas as informações serão tratadas com cautela e transparência.
Os números, por si só, já são um sinal de alerta: de 1º de janeiro a 27 de abril, o município registrou 411 casos positivos, 1.027 negativos e ainda 104 sob investigação. Estatísticas que, mais do que números frios, representam famílias impactadas, sistemas de saúde pressionados e uma comunidade que precisa reagir.
É nesse ponto que o debate deixa de ser apenas técnico e se torna essencialmente coletivo. A dengue não se combate apenas com ações do poder público, embora elas sejam indispensáveis. Campanhas educativas, mutirões de limpeza, visitas domiciliares e monitoramento constante são pilares fundamentais. Mas sem o engajamento direto da população, todo esforço se torna insuficiente.
O mosquito não respeita muros, calendários ou discursos. Ele se prolifera no detalhe, na água parada esquecida, no quintal negligenciado, no hábito que não muda. Por isso, o enfrentamento exige algo simples, mas poderoso: constância. Não apenas durante surtos ou diante de tragédias, mas ao longo de todo o ano.
Mais do que nunca, é preciso transformar preocupação em atitude. União entre administração pública e comunidade não pode ser apenas um conceito repetido em campanhas, deve ser prática diária. Porque, enquanto houver espaço para o mosquito, haverá risco. E enquanto houver risco, a dengue continuará sendo essa velha conhecida que insiste em não ir embora.