Dialogando se ensina: tributo a Paulo Freire

OPINIÃO - Saulo Marcos de Almeida

Data 02/02/2021
Horário 04:30

A propósito do retorno às aulas escolares, presto de forma singela, homenagem ao patrono da educação brasileira: Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997). Impressiona-me, entre tantas realizações, a história particular do educador na alfabetização de jovens e adultos e a sua rica bibliografia, infelizmente ainda desconhecida de parte considerável do país. 
Comprometido com a população de baixa renda, Freire desenvolveu um método pedagógico eficiente de alfabetização para pessoas que perderam a oportunidade de estudar no momento apropriado (início dos anos 60). A espinha dorsal do processo de ensino e aprendizagem era o diálogo, a escuta e o respeito pelo outro: homens e mulheres, diante da necessidade de aprender tardiamente, não perderam sua capacidade ativa de produzir significados e sentido à própria existência... Proposta do franzino educador. 
O objetivo não era apenas superar a cartilha da época e criar leitores, mas fazer do cidadão o sujeito de sua própria história. A experiência alfabetizadora: 300 adultos, moradores da cidade de Angicos, Rio Grande do Norte, alfabetizados em 40 horas de estudo (Freire e equipe). O resultado da experiência da alfabetização no nordeste do país foi tão bom que inspirou o PNE (Plano Nacional de Educação).
A teoria do conhecimento de Freire apropriava-se do diálogo para a formação de uma listagem de termos conhecidos. A partir daí desenvolvia-se um processo de separar e agregar palavras, em busca das palavras geradoras, que resultariam em conteúdo para as oficinas de trabalho com os aprendizes. As atividades eram concentradas na construção de sílabas - um exercício focado nos termos colhidos do ambiente e realidade do aluno/aluna, como por exemplo: roçado; tijolo – palavras que faziam parte da vida dos moradores simples e analfabetos da cidade de Angicos.  
A finalidade maior de Freire não era apenas a sistematização do ensino, mas a possibilidade de trabalhar o diálogo como instrumento social do alfabetizando, de modo a se tornar uma ferramenta eficaz no desenvolvimento da cidadania, o que Freire chamou de consciência crítica. A defesa obstinada dessa ação pedagógica (práxis e teoria), fundamentada na certeza de que a educação é um processo que conduz o aprendiz pelos caminhos da autonomia e da transformação histórica, desencadeou um mal-estar entre os governantes na década de 60, fato que interrompeu a curta trajetória do PNE e do educador no Brasil, quando Freire experimentou, a partir de então, o exílio.
O educador retornou ao Brasil na década de 80, menos reconhecido em sua terra do que no exterior. Tornou-se secretário da Educação da cidade de São Paulo e, obstinadamente, criou o Mova - Movimento de Alfabetização no município (1989-1992) para, a seguir, tornar-se professor da Unicamp/Campinas e palestrante por todo o país e mundo. 
Quando estamos voltando às aulas em todo o país peço, inspirado em Paulo Freire, a todos os pais e/ou responsáveis que não desistam da educação! Permitam-me parafrasear Lavoisier: Na educação nada se perde, tudo se cria, tudo se transforma! 
 

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