Dívidas Pequenas, Problemas Grandes

OPINIÃO - Walter Roque Gonçalves

Data 17/05/2026
Horário 04:06

Dados divulgados pela Associação Comercial e Empresarial de Presidente Prudente revelam um cenário preocupante da inadimplência na cidade. Entre 1º de janeiro e 15 de abril deste ano, foram registrados 1.699 consumidores inadimplentes, somando 2.148 ocorrências de débitos e um total de R$ 1.445.141,77 em pendências financeiras.
O levantamento chama atenção não apenas pelo volume de registros, mas principalmente pela composição dessas dívidas. Embora a maior parte das ocorrências esteja concentrada em atrasos mais recentes — 1.948 registros com até um ano de atraso —, os maiores impactos financeiros estão justamente nas dívidas antigas. Os débitos com prazo de até cinco anos concentram R$ 1.328.356,55, representando a maior parcela do valor total devido.
Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra um fenômeno silencioso e perigoso: a enorme presença das pequenas dívidas. São 1.290 ocorrências de até R$ 500. Isso indica que muitas famílias estão enfrentando dificuldades justamente nas despesas do cotidiano — mercado, farmácia, contas básicas, pequenos parcelamentos e serviços essenciais.
O problema é que dívidas pequenas raramente permanecem pequenas por muito tempo. Em um país que convive há anos com juros elevados no cartão de crédito e no cheque especial, valores aparentemente administráveis podem crescer rapidamente quando entram em atraso. Muitas vezes a dívida começa em algumas centenas de reais e, após meses ou anos de juros, multas e renegociações, transforma-se em um problema financeiro muito maior.
Além disso, a inadimplência atual não possui uma única causa. Inflação, perda de poder de compra, desorganização financeira, crédito fácil, consumo impulsivo e até o avanço das apostas online ajudam a pressionar o orçamento familiar. Em muitos casos, pequenos vazamentos financeiros recorrentes acabam comprometendo justamente o pagamento das despesas básicas.
Do outro lado, o comércio também sofre os impactos. Quando a inadimplência cresce, empresas perdem capacidade de reinvestimento, reduzem estoque, desaceleram contratações e aumentam a cautela nas vendas a prazo. O reflexo não fica apenas na relação entre cliente e empresa. Ele atinge toda a economia local.
Os números da Associação Comercial ajudam a mostrar que a inadimplência não começa necessariamente em grandes financiamentos. Muitas vezes ela nasce em pequenas contas ignoradas, cresce no crédito caro e se fortalece com o passar do tempo. E no Brasil, poucas coisas crescem tão rápido quanto uma dívida sem controle.

 

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