Do asfalto ao jaleco: o estudante de Medicina que limpa as ruas para curar vidas

SINOMAR CALMONA

Entre livros de anatomia e o caminhão da Prudenco, Guilherme Mazzini, de 24 anos, prova que o impossível é apenas uma questão de perspectiva e determinação

COLUNA - Sinomar

Data 21/01/2026
Horário 04:02
GUILHERME MAZZINI (CAMISETA AZUL), DURANTE O TRABALHO DE COLETA NA TARDE DE ANTEONTEM: ELE NÃO QUER APENAS UM DIPLOMA; ELE QUER SER UM MÉDICO COM A EMPATIA DE QUEM CONHECE O VALOR DE CADA CIDADÃO, INDEPENDENTEMENTE DA PROFISSÃO. EM UM MUNDO DE TANTAS DESCULPAS, O GUILHERME ESCOLHEU O PROPÓSITO
GUILHERME MAZZINI (CAMISETA AZUL), DURANTE O TRABALHO DE COLETA NA TARDE DE ANTEONTEM: ELE NÃO QUER APENAS UM DIPLOMA; ELE QUER SER UM MÉDICO COM A EMPATIA DE QUEM CONHECE O VALOR DE CADA CIDADÃO, INDEPENDENTEMENTE DA PROFISSÃO. EM UM MUNDO DE TANTAS DESCULPAS, O GUILHERME ESCOLHEU O PROPÓSITO

O CONTRASTE DAS DUAS REALIDADES
Enquanto o sol ainda nem apareceu no horizonte de Presidente Prudente, a rotina de Guilherme da Silva Mazzini já começou. Para a maioria dos estudantes de Medicina, o desafio do dia reside em decorar as complexidades da patologia ou compreender as minúcias da fisiologia humana. Para Guilherme, o desafio é duplo: ele precisa manter a mente afiada no rigor acadêmico e o corpo resiliente para a corrida frenética do turno da coleta de lixo.
"Rapaz do céu, o maior desafio da minha vida é a Medicina", confessa Guilherme, enquanto faz uma pausa estratégica entre um descarte e outro. Ele está no segundo ano da faculdade, mas sua verdadeira especialização começou muito antes de entrar no hospital: a especialização em humanidade e esforço.

UMA ROTINA SEM ESPAÇO PARA DESCULPAS
A agenda de Guilherme parece impossível para olhos comuns. Ele começa às seis da manhã e, muitas vezes, só consegue descansar às duas da madrugada. Bolsista do FIES, ele encontrou na coleta de lixo noturna da Prudenco não apenas um sustento, mas o combustível para sua jornada.
"O cara pega o lixo da faculdade de Medicina e, depois, está estudando lá", diz ele com um sorriso que ignora o cansaço. Para Guilherme, não há espaço para o "olhar torto" ou o preconceito. Onde outros veriam uma barreira, ele vê uma honra. Sua trajetória viralizou, transformando o jovem coletor em um símbolo de esperança para milhares de seguidores que acompanham sua luta diária nas redes sociais.

A FACULDADE DA RUA: LIÇÕES DE EMPATIA
Questionado sobre que tipo de médico pretende ser, Guilherme não cita títulos acadêmicos ou especializações pomposas. Ele fala de alma. "Quero ser humano, com empatia, bastante alegria. É o que a gente vive no dia a dia".
A rotina nas ruas ensinou a Guilherme algo que muitos livros de medicina esquecem de mencionar: a invisibilidade social e o valor de cada indivíduo. "A coleta ensina que não importa se a pessoa tem muito ou pouco. Ninguém é mais do que ninguém. É assim que pretendo tratar meus pacientes", afirma o futuro médico, inspirado pelo exemplo da mãe, que atua na enfermagem.

UM CONVITE À AÇÃO
A conversa com Guilherme, ocorrida num final de tarde enquanto o caminhão passava, deixou uma mensagem clara para quem acompanhou seus passos. Em um mundo cheio de planejadores e idealizadores, ele faz um apelo à execução.
"Galera, tem pessoas que sonham e tem pessoas que optam por fazer. Sonhadores já tem demais", finaliza Guilherme antes de retomar o trote atrás do caminhão. Em Presidente Prudente, o lixo que ele recolhe hoje é o degrau que o levará ao centro cirúrgico amanhã. Guilherme Mazzini não está apenas estudando para ser médico; ele já está curando a sociedade de um dos seus piores males: o desânimo.

FICHA TÉCNICA DA JORNADA:
•    Nome: Guilherme da Silva Mazzini, 24 anos.
•    Instituição: Estudante de Medicina (2º ano) em Presidente Prudente.
•    Trabalho: Coletor de lixo na Prudenco.
•    Missão: Inspirar pessoas a enfrentarem o impossível com propósito.
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Foto - Guilherme Mazzini 02 – 210126


 

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